01 março 2026

Guerra: Entrevista com o Professor Jeffrey Sachs conduzida pelo académico e politólogo norueguês Glenn Diesen

Glenn Diesen

Hoje, temos a honra de conversar com o Professor Jeffrey Sachs sobre a guerra que eclodiu no Irão. Enquanto a CNN noticiava que um acordo estava próximo, poucas horas depois Israel e os Estados Unidos atacaram o Irão. Os ataques terão ocorrido em todo o país, e agora o Irão está a responder com muita força, atingindo bases militares e alvos americanos em toda a região. Estamos a assistir a ataques no Bahrein, Qatar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos, Jordânia, Iraque, possivelmente na Arábia Saudita e, claro, em várias cidades de Israel. Gostaria de saber como interpreta esta situação? Quais são os objetivos dos Estados Unidos? E como explica, por exemplo, a forte resposta iraniana?

Jeffrey Sachs

Bem, o objetivo é claro. É a mudança de regime no Irão. Este é um sonho israelita há 30 anos. Israel provocou guerras por todo o Médio Oriente, utilizando os Estados Unidos e o seu controlo efectivo sobre Washington, que mantém por diversas razões em conflitos que se estendem desde a Líbia, Somália, Gaza, Cisjordânia, Líbano, Síria, Iraque e Iémen. E o Irão sempre foi o grande prémio. Portanto, isto faz parte de um plano israelita a longo prazo.

O plano é a hegemonia militar israelita na região, apoiada pelos Estados Unidos. O objectivo básico é o domínio israelita através das suas armas nucleares e do apoio americano, para a supressão do mundo árabe e, na prática, a expulsão da Rússia e da China da região. Portanto, esta é uma manobra geopolítica.

É, obviamente, uma tentativa de derrubar o Irão, mas faz parte de uma busca pela hegemonia global. Não há dúvida disso. Isto faz parte de uma guerra mundial que os Estados Unidos estão a travar. A guerra foi na Venezuela. A guerra está a chegar a Cuba, ou já está em Cuba. Ontem, o presidente disse que os Estados Unidos iriam fazer uma tomada amigável de Cuba. A guerra está no Médio Oriente. A Europa é já um Estado vassalo dos Estados Unidos. Portanto, os Estados Unidos estão a tentar manter a sua hegemonia global. É claro que, quando se age com tamanha violência, imprudência, mentiras e ilusões, os resultados podem ser completamente catastróficos.

Estamos nos primeiros momentos de algo que vai desencadear reações em cadeia em todo o mundo. Não acho que isto vá acabar bem. Penso que é uma ação extraordinariamente perigosa. Aliás, nos Estados Unidos existe um regime inconstitucional governado por uma pequena clique criada por Trump e pelo seu círculo. Não há autorização do Congresso, nem qualquer base legal para nada disto. Israel, por sua vez, está à beira de uma guerra civil. Além disso, os Estados árabes vassalos são impopulares, digamos assim.

Os governos europeus também são impopulares, com líderes que mal atingem entre 10 e 20% de aprovação. Por isso, é uma guerra marcada por uma enorme instabilidade política entre as nações beligerantes. As coisas podem explodir em qualquer lugar.

A minha opinião é que tal não se deve a nenhuma das razões alegadas, como uma ameaça iminente do Irão. Muito pelo contrário. Como o mediador omanita afirmou repetidamente, mesmo após o início da guerra, as negociações continuaram, progrediram e desenrolaram-se de forma ordenada.

Falo frequentemente com os iranianos. Não só estavam dispostos a negociar, como já tinham negociado todos estes acordos há 10 anos. Portanto, isto não tem nada a ver com ameaças iminentes, provocações ou armas nucleares, na verdade. Trata-se simplesmente de hegemonia e de mudança de regime: hegemonia regional por parte de Israel e hegemonia global pelos Estados Unidos.

Todas as acusações sobre o Irão estar a desenvolver armas nucleares são falsas. A retórica bélica de Trump esta manhã é bastante evidente, ele está a dizer a mesma coisa que Marco Rubio mencionou recentemente: a necessidade de restaurar a hegemonia ocidental. E acho que há muita incerteza e insegurança agora com esta sensação de declínio relativo.

Há um filme antigo que tenho a certeza que muitas pessoas já viram, O Feiticeiro de Oz. No final, o grande mago é desmascarado quando um cãozinho puxa a cortina e revela que é apenas um velhote a falar através de um megafone.
O curioso da propaganda americana é que a cortina foi aberta há muito tempo. Aliás, no mês passado, a nossa Secretária do Tesouro, que tem um jeito um pouco autoritário, explicou que o objectivo da política americana no ano passado era esmagar a economia iraniana e levar as pessoas para a rua. Ela explicou passo a passo. Disse que, em março passado, Trump deu a ordem para aplicar "pressão máxima".

A ideia era afundar a moeda. Ela disse que, em dezembro, isso funcionou. Os bancos faliram, houve escassez de dólares, a moeda desmoronou e as pessoas estavam a sofrer. Elas foram para a rua, e ele disse que as coisas estavam a caminhar num sentido muito positivo, por isso revelou a verdade. Isto não era um protesto contra um regime; era uma operação de mudança de regime orquestrada pelos EUA.

A propaganda é tão descarada que não se importam se são acreditados ou não. Só se preocupam em ter uma narrativa. E é essa a situação em que nos encontramos agora. Houve uma tentativa de derrubar economicamente o regime. As negociações foram uma farsa porque, tanto no ano passado como este ano, quando as negociações estavam em curso, os EUA atacaram.

Trata-se de uma agressão premeditada, sem qualquer justificação do tipo apresentada pelo governo dos EUA. Nem sequer tem a aparência moral de uma operação secreta de mudança de regime. Na maioria das vezes, os EUA agem com violência de forma repugnante, mas fingem que não são eles.

Por conseguinte, a maioria das operações de mudança de regime orquestradas pelos EUA são secretas. Agora já não se importam. A audácia pode derivar da megalomania e da instabilidade psicológica de Trump. Pode ser a necessidade dos Estados Unidos reafirmarem a sua dominância. E todas as explicações oferecidas são mentiras descaradas.

O objetivo é claro. Israel deveria governar o Médio Oriente, dominá-lo, ser o Grande Israel. O nosso próprio embaixador em Israel, Mike Huckabee, que representa os sionistas cristãos nos Estados Unidos (aproximadamente 20% dos americanos, que são protestantes evangélicos fundamentalistas), disse que Israel deveria possuir todo o Médio Oriente porque é isso que a Bíblia diz.
Deus deu-lho. Portanto, esta é outra parte da história. Foi repreendido por dizer isso? De forma alguma. Tenho a certeza de que houve aplausos na Casa Branca, sem qualquer reprimenda.

Por outro lado, o mundo árabe está essencialmente sob domínio imperial desde 1517, desde as conquistas otomanas das terras árabes. Os árabes estiveram sob domínio otomano durante séculos e, depois, sob domínio britânico. Agora estão sob o domínio americano e israelita. Estão praticamente subjugados, não se atrevem a manifestar-se, há bases militares americanas por todo o seu território — é basicamente terra ocupada. É tudo muito perigoso e muito triste.

Glenn Diesen

Mas porque é que o embaixador dos EUA em Israel afirma abertamente que Israel pode ficar com metade do Médio Oriente?


Jeffrey Sachs

Israel é um país que atua essencialmente como fornecedor de segurança para todos os Estados que estão agora ameaçados. E agora vemos aliados dos EUA em toda a região a serem atacados. Isto não é bom para a credibilidade americana, para a ideia de que o país é todo-poderoso. Se os Estados Unidos falharem na sua tentativa de destruir o Irão ou de promover uma mudança de regime, perderão toda a credibilidade.

Quais serão as consequências? Parece que os Estados Unidos apostaram tudo em recuperar o seu domínio, a sua hegemonia e que acontece se falharem? Muitas coisas podem correr mal. De uma forma ou de outra, falharão, porque 4% da população mundial não consegue governar o mundo. A premissa aqui é a mesma do Império Britânico no final do século XIX.

Li recentemente um discurso de Joseph Chamberlain, que chefiava o Ministério das Colónias em 1897, no qual afirmava que a Grã-Bretanha governaria o mundo até onde a vista alcançasse. E, claro, 50 anos depois, o Império Britânico tinha desaparecido.

O mesmo acontecerá com os Estados Unidos. Este é o objetivo final. Não se trata de uma afirmação genuína de hegemonia global, embora exista a mesma arrogância. E, em geral, estas guerras têm uma grande probabilidade de escalar para uma guerra mundial. Deus nos ajude se ela se tornar nuclear, porque isso seria o fim do mundo.
Segundo alguns, está já em curso uma guerra mundial, porque neste momento existem guerras interligadas em todas as regiões do mundo onde os Estados Unidos estão a intervir. Mas, mais uma vez digo, os Estados Unidos não podem governar o mundo. Não possuem o domínio económico, tecnológico ou militar necessário para tal, e o resto do mundo também não quer ser governado pelos Estados Unidos.

Não há forma de os Estados Unidos imporem um regime estável e pró-americano no Irão. Não é possível. Não estamos em 1953, quando o MI6 e a CIA impuseram um Estado policial ao Irão. Isso não vai acontecer. A sociedade civil iraniana, independentemente de apoiar ou não o atual governo, não aceitará isto.

O Irão é um país de 100 milhões de habitantes com 5.000 anos de história e não será governado pelos Estados Unidos ou por Israel sem tropas no terreno, que teriam de ser posicionadas a milhares de quilómetros de distância. Os Estados Unidos meteram-se numa grande enrascada e não sabemos o que vai acontecer. Talvez matem muitas pessoas nos próximos dias e declarem isso um grande sucesso. Há relatos de que já mataram 40 crianças num atentado bombista nos arredores de Teerão.

Mas não há forma de os EUA atingirem os seus objectivos estratégicos a longo prazo. Os próprios Estados Unidos não são suficientemente estáveis ​​para isso. Trump é, obviamente, uma figura muito impopular e profundamente divisora. A sua taxa de aprovação irá certamente cair nos próximos meses. Por vezes, a popularidade sobe um pouco, mas mesmo com a guerra, não vai subir nas sondagens. O público americano estava firmemente contra esta guerra. Estamos a caminhar para as eleições de Novembro, e Trump pode tentar subvertê-las porque está a falar abertamente em federalizar as eleições, o que significaria fraude em massa.

Glenn Diesen

É verdade, esta é uma situação muito instável, um gatilho, ou melhor, um rastilho, que foi aceso e terá consequências semelhantes a uma guerra em muitas regiões do mundo. Também no Paquistão, uma potência nuclear actualmente em guerra com o Afeganistão. O que significa? De onde veio? Qual é o papel dos Estados Unidos nisso? Suspeito que o papel dos Estados Unidos seja bem real. E a ideia de que esta será uma guerra de 12 dias e que surgirá um novo regime iraniano, venerando Israel e os Estados Unidos, é uma fantasia. Como vê a resposta dos aliados dos Estados Unidos? Porque vimos recentemente o primeiro-ministro do Canadá dizer que a ordem internacional baseada em regras sempre foi um pouco fraudulenta. Agora diz que é totalmente a favor desta guerra.

E a União Europeia não publicou nada que pudesse ser interpretado como uma crítica aos Estados Unidos. Nem um único comentário crítico. E isto depois de os Estados Unidos terem também voltado as suas atenções para o território da UE. Como pode ser entendido? Porquê este ódio contra o Irão? Onde estão os princípios? Onde estão as normas? Onde está o direito internacional?


Jeffrey Sachs

Após a Guerra Fria, foi-nos dito que a hegemonia ocidental colocaria as regras, os princípios e os valores internacionais acima da política do poder brutal. E, no entanto, aqui estamos. Não há um único comentário crítico sobre esta violação do direito internacional. Não, ainda não vi um único comentário crítico. Isto expõe mais uma vez Bruxelas como quase fascista, aliás.
O ataque é contra o Irão, não contra os Estados Unidos. Trump lançou uma agressão premeditada. Nem uma palavra sobre o assunto. É dececionante.

Não conheço o contexto completo, mas pelo que li, pelo menos Carney apoiava os Estados Unidos, e a Austrália também. Ora, creio que a verdade é que, se somarmos as populações dos Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, União Europeia e Austrália, atingimos talvez 1 bilião de pessoas. A população do mundo branco, por assim dizer, o mundo ocidental que se mostra actualmente entusiasmado com o ataque ao Irão.

Isto representa aproximadamente 12 ou 13% da população mundial. Então, ouvimos esta propaganda porque este é o nosso mundo ocidental. O mundo ocidental domina os meios de comunicação social, especialmente os meios de comunicação de língua inglesa, mas não creio que seja representativo da opinião mundial. É chocante que a ideia fundamental dos Estados Unidos seja a de que a Europa é uma região vassala e que não nos devemos preocupar com ela, uma vez que os seus líderes são vassalos, porta-vozes inúteis dos interesses americanos.

O Canadá tinha demonstrado um vislumbre de independência, mas parece tê-la perdido completamente. A Austrália não me surpreende; faz parte do mundo britânico. Há demasiado ódio contra os muçulmanos, demasiado ódio contra o Irão. Talvez isto remonte a Heródoto e às Guerras Pérsicas, mas estes são estereótipos absolutamente grotescos.

Há muita ignorância no mundo branco sobre o resto do mundo. E é isso que estamos a ver agora. Existe também um controlo sionista muito forte sobre estes governos. Estes governos são subservientes a Israel. São chantageados por Israel, subornados por Israel. Têm sistemas de armas e operações de inteligência com Israel. Utilizam o Pegasus e outras ferramentas de espionagem. Portanto, eis uma aliança militar-industrial funcional que é também muito poderosa, na qual Israel é o protagonista, e não apenas mais um membro do clube hegemónico americano. Parte disso tem a ver com a política interna.

Quando Trump fez o seu discurso sobre o Estado da União, houve uma ovação de pé no Congresso quando falou sobre o quão maligno era o Irão. O Congresso dos EUA é controlado e gerido pelo lobby sionista. Isto não é um exagero; É um facto literal. Qualquer membro do Congresso pode explicar-lhe isso. Se se desviarem da linha do lobby, enfrentam retaliações, enfrentam rivais nas primárias, enfrentam difamação. Se seguirem a linha do lobby israelita, recebem recompensas, viagens, benefícios e contribuições para as suas campanhas.

E isso está ligado à CIA, à Mossad e ao complexo militar-industrial, que detém um poder omnipresente e é o que controla os Estados Unidos. Nós não temos verdadeiramente um sistema democrático. Temos um complexo militar-industrial que dirige a política externa americana em todo o mundo, e Israel está profundamente inserido neste sistema. Portanto, essa é outra razão para o que estamos a ver agora.

Mas o que é chocante é que este ataque descarado, premeditado, extraordinariamente violento e vulgar está a ser levado a cabo contra o Irão. E a Europa não diz nada, tal como o Canadá e a Austrália. Isto mostra o tipo de mundo em que vivemos. Aparentemente, não restam princípios.

Glenn Diesen

Trump também quer demonstrar que este é um mundo de gangsters, e quer ser o gangster número um. Então, quão grave é isto? Quer dizer, diz que, internacionalmente, isso poderia incendiar o mundo inteiro, dado que parece afetar todos os cantos do planeta. Mas o que acontecerá nos Estados Unidos? Já existe uma divisão dentro do grupo MAGA que não aceita colocar Israel em primeiro lugar em detrimento dos Estados Unidos. Suponho que uma guerra falhada e humilhante no Irão certamente influenciaria isso. Mesmo uma guerra vitoriosa influenciaria. Mas parece que seria muito difícil aceitar um fracasso. Internacionalmente, poderá esta sair fora de controlo e transformar-se numa terceira guerra mundial? É muito cedo para dizer. A guerra começou há apenas algumas horas, mas que cenários possíveis vê aqui?


Jeffrey Sachs

A teoria é que o Irão será decapitado. Ataques maciços subjugarão o Irão em pouco tempo, e em breve tudo estará calmo. Trump declarará vitória, será um herói e as coisas seguirão em frente. Essa é a visão dos EUA. É possível. Poderíamos estimar em 5% ou 10%. Nenhuma operação deste tipo realizada pelos EUA teve este resultado em décadas.

Esta foi a teoria de que os EUA derrubariam Saddam em 2011, e, na realidade, a guerra durou 15 anos. Esta foi a teoria de que os EUA derrubariam Khadafi em 2011. Esta guerra civil continua até hoje. Esta é a teoria do derrube do governo sudanês, que enfrenta agora duas guerras civis, uma no Sudão e outra no Sudão do Sul. Esta é a teoria da Guerra do Iraque, de que a guerra traria calma. E trouxe, missão cumprida, lembram-se? E depois a guerra levou a anos e anos de instabilidade. Assim foi a guerra no Afeganistão, que durou 20 anos e terminou em fracasso.

Desta vez, nem sequer há planos para enviar tropas para o terreno. Como é que os EUA vão controlar o Irão à distância? Não há resposta para isso. Depois, veremos o padrão de sempre. Anúncios triunfantes a muito curto prazo, nas próximas 48 horas. Depois, muita propaganda nas semanas seguintes e, de seguida, assistiremos às repercussões durante muitos e muitos anos. Creio que estas repercussões serão, sem dúvida, desestabilizadoras. Não vejo como é que isso poderia ser estabilizador de alguma forma. Não vejo como os objetivos poderiam ser alcançados.

Dou uma probabilidade quase nula a uma vitória estratégica. Do ponto de vista americano ou israelita, isso significaria instalar um novo Xá no Irão, um novo estado policial como o que existiu entre 1953 e 1979. Mas penso que a possibilidade de tal acontecer é nula. Considerando que acabámos de instalar Golani e os seus comparsas do Estado Islâmico na Síria, isto não é nada bom, mas penso que precisamos de ser muito claros.

Os Estados Unidos estão preocupados com a aparência de democracia. Isto não tem nada a ver com democracia. Não temos democracia nos Estados Unidos, não a temos em Israel e, na verdade, já não a temos no mundo ocidental. Temos alguns traços de democracia, mas já nos tornámos estados militarizados.

E nos Estados Unidos, isso é certamente verdade. O nosso sistema de governo é constitucional; estabelece que o Congresso tem o poder de declarar a guerra. No entanto, acabámos de ter uma guerra declarada por uma só pessoa a meio da noite, contra a opinião pública. Portanto, não somos uma democracia.
Temos as aparências de uma, mas o Império Romano também as tinha. Tinham senadores de toga, mas era um império, não uma república. E é essa a realidade em que vivemos agora. Aliás, este não é um império estável nos Estados Unidos. É muito instável e as divisões internas são muito profundas.

Portanto, mais uma vez, o horizonte temporal é crucial aqui. O que acontece em dias ou semanas pode ser muito diferente do que acontece ao longo de alguns anos, mas Trump acendeu um rastilho completamente explosivo que em breve explodirá em muitos lugares do mundo, e a situação não voltará à estabilidade num dia ou num mês, independentemente do que aconteça a curto prazo.

Trump acendeu um rastilho que acabará com os Estados Unidos tal como os conhecemos e com a sua hegemonia. E acredito que, com o tempo, provavelmente também acabará com Israel tal como é hoje, possivelmente dentro de uma ou duas décadas. É uma explosão que foi detonada, e é muito grande. Não será extinta com um ataque de decapitação rápido ou uma operação de mudança de regime.

Glenn Diesen

Ontem à noite, estive com um juiz napolitano, e ele perguntou-me se eu achava que a guerra iria acontecer. Eu disse que havia fortes argumentos que sugeriam que os Estados Unidos tinham investido demasiados recursos para simplesmente se retirarem. Havia demasiada bravata para recuarem. E, claro, Israel não permitiria uma paz que deixasse o Irão sem pressão. Mas, por outro lado, defendi que o argumento a favor da paz não tinha um caminho viável. É tudo uma loucura. Não há estratégia ou narrativa que explique como é que isto poderia ter sucesso. No fundo, era previsível que isso incendiasse o mundo, e esse era o meu argumento. Sim, suponho que estava enganado sobre isso. Aconteceu, mas continua a não fazer sentido. É por isso que achei difícil acreditar que eles realmente iriam levar isto para a frente.

Jeffrey Sachs

Tu, eu e pessoas que pensam em termos de razão e consequências diríamos que esta agressão não deveria existir. Quando acordei esta manhã em Nova Iorque e liguei a televisão, fiquei estupefacto, pois o mediador iraniano disse ontem à noite que estavam a ser feitos progressos significativos e que se reuniriam na próxima semana.

Penso que a máquina de guerra dos EUA e de Israel é extremamente poderosa. É uma espécie de fascismo com uma face diferente, mas muito poderosa. E o único presidente que tentou impedi-la foi o presidente Kennedy, em 1963. E a CIA assassinou-o depois disso. Essa foi uma mensagem para os presidentes que lhe sucederam. O Estado profundo é uma máquina de guerra. O presidente dos EUA é apenas um ocupante temporário do cargo e é melhor estar atento.

Glenn Diesen

Bem, Jeffrey, obrigado como sempre por ter dedicado o seu tempo. Espero sinceramente que Trump entenda esta agressão como um grande fracasso e declare que estão prontos para iniciar novas negociações sérias — algum disparate, o que é geralmente bom — e que ponha um fim a isto o mais rapidamente possível.

Jeffrey Sachs

Na verdade, Glenn, não tenho qualquer esperança em Donald Trump. Se o resto do mundo levantar a voz com base no princípio fundamental de que a guerra pode acabar com tudo, não podemos esquecer que estamos certos, que a Constituição das Nações Unidas, no seu artigo 2.º, n.º 4, refere que é ilegal ameaçar ou usar a força contra qualquer Estado-membro da ONU. Se o mundo aderisse a este princípio, estabelecido em 1945 para prevenir o que tinha acabado de acontecer e para o impedir depois de acontecer, essa seria a nossa única esperança.

A esperança não é Trump. A esperança não é Netanyahu. A esperança não vem dos Estados Unidos. A esperança é que a maioria do mundo — talvez não os Estados vassalos dos Estados Unidos, mas a maioria do mundo — diga que isto é completamente ultrajante, perigoso e ilegal. Eu sei que parece uma esperança vã. Porque não espere nem um sussurro dos europeus. Estes países estão a atingir novos níveis de cobardia e falta de princípios.


Glenn Diesen

De facto, muito obrigado por ter dedicado o seu tempo, e esperemos que isto não saia do controlo. Obrigado.

Entrevista publicada AQUI

07 fevereiro 2026

A MISÉRIA MORAL DE EPSTEIN - II

As listas de celebridades que aparecem no processo Epstein expõem a degeneração das oligarquias ocidentais, as mesmas que sempre falam de direitos humanos e moralidade.

A comunicação social habituada a este tipo de lixo, vende "notícias" e a lucrar com isso. Além da Família Real e da Câmara dos Lordes, em Inglaterra, as listas incluem também a casta de elite que gere os assuntos públicos. Estamos a ser "habituados" ao crime e corrupção.

Epstein era o chulo das cliques políticas e económicas que aparecem em quase três milhões e meio de páginas do processo nos EUA. 
A rede de contactos inclui muitos ministros e políticos como Thorbjørn Jagland, antigo primeiro-ministro da Noruega e secretário-geral do Conselho da Europa, segundo a Sky News (1) e que tentou aliciar Putin. A comunicação social tenta explorar estas situações.
As tentativas de Epstein para contactar Putin foram infrutíferas, mas o mero interesse do proxeneta foi pretexto para a comunicação social ocidental colocar o seu nome nas manchetes (2).

Segundo o New York Post, “milhares de mensagens enigmáticas ligam Jeffrey Epstein a Vladimir Putin […] levantando uma nova teoria sobre para quem realmente trabalhava” (3).

Esta enxurrada de desinformação gerou euforia em alguns órgãos de comunicação social, como o Business Times, que não tem papas na língua: Epstein tinha “acesso directo ao Kremlin” e há evidências de “encontros” e “contactos” com Putin (4).

Verificadores de factos, como Newtral, Maldita e outros, já estão em alerta para nos impedir de sermos enganados por fraudes e mentiras desta magnitude.

(1) https://news.sky.com/story/i-still-would-like-to-meet-putin-epsteins-unrequited-love-for-russian-leader-13502862
(2) https://www.politico.com/news/2025/11/12/jeffrey-epstein-donald-trump-russia-emails-00648919
(3) https://www.msn.com/en-us/news/world/emails-reveal-new-theory-about-whom-jeffrey-epstein-was-really-working-for/ar-AA1VuMD6
(4) https://www.btimesonline.com/articles/176583/20260202/new-epstein-records-surface-emails-citing-putin-meetings-and-russian-access.htm 

ver em  https://diario-octubre.com/2026/02/06/epstein-y-putin-una-historia-de-amor-imposible/

A MISÉRIA MORAL DE EPSTEIN

A miséria moral de Epstein é tão grande quanto a sua riqueza financeira. 

Os mais recentes documentos divulgados pelo Departamento de Justiça dos EUA detalham a forma como o falecido financeiro Jeffrey Epstein, condenado por crimes sexuais, manteve uma ativa rede de contactos em vários países com mulheres, modelos e encontros com figuras políticas e empresariais e tráfico sexual de menores e sua violação.

De acordo com uma nota na agenda, em janeiro de 2019, Epstein organizou uma visita relâmpago a Bruxelas: chegaria de comboio vindo de Paris por volta das 17h00 e partiria pouco depois das 20h00, acompanhado por associados não identificados de França e da Ucrânia.

Em 2019, o então Ministro dos Negócios Estrangeiros da Eslováquia, Miroslav Lajcak, sugeriu um encontro no restaurante La Brasserie des Étangs Mellaerts. Depois de ter sido revelado que manteve contacto com Epstein depois da condenação deste em 2008, Lajcak demitiu-se no sábado do cargo de conselheiro de segurança nacional, embora tenha mantido a sua inocência.

Entretanto, o ex-ministro britânico e ex-comissário europeu Peter Mandelson recomendou o restaurante L’Idiot Du Village a Epstein. Mandelson, demitido em setembro pela sua relação com o financeiro, está a ser investigado por ter divulgado informações confidenciais da UE a Epstein em 2010.

O príncipe Laurent da Bélgica confirmou dois encontros com Epstein esta semana, depois de o seu nome ter aparecido na agenda do financeiro, insistindo que não fez nada de impróprio para abafar os "rumores".

Interferência em Assuntos Europeus

A correspondência mostra que Epstein também discutiu assuntos regulamentares europeus. Em 2018, trocou e-mails com Steve Bannon, antigo conselheiro de Donald Trump, sobre os planos da Comissão Europeia para regular as criptomoedas. Em 2015, enquanto a UE ultimava os trabalhos preparatórios para o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD), um investigador de cibersegurança pediu a sua opinião sobre um discurso no Parlamento Europeu relativo ao software de vigilância, dizendo-lhe que seria um "bom exemplo do público-alvo". O seu advogado recusou comentar.

Os autos do processo continuam a revelar a extensão das redes que o falecido financeiro teceu nos círculos de poder europeus, enquanto prosseguem várias investigações. 

03 fevereiro 2026

Xi Jinping atravessa o Rubicão e desafia o dólar.

Após um período em que estive sem tempo para escrever e editar neste blog, decidi transcrever um artigo de obsadmin de hoje em ObservatorioCrisis, por me parecer muito interessante e explicativo da crise do capitalismo e em especial na sua fase imperialista focada nos EUA.:

Há anos que tentamos explicar nestas colunas que a raiz da enorme crise geopolítica em curso reside no estado desastroso das contas nacionais dos Estados Unidos, que minam fundamentalmente a credibilidade do dólar como moeda padrão para o comércio.

Um esclarecimento importante: as contas nacionais não se referem às contas do governo e, portanto, ao orçamento público, mas sim à balança comercial, à balança corrente e ao seu saldo acumulado, ou seja, à posição líquida de investimento internacional (PLII). Trata-se de uma categoria específica de contas que nos permite avaliar a verdadeira competitividade do sistema produtivo de uma nação, bem como a sua capacidade de atrair investimento e, inversamente, avaliar a excessiva dependência de um país em relação ao capital estrangeiro.

Esta última circunstância expõe o país aos caprichos e à especulação de grandes corporações apátridas, interessadas apenas na rentabilidade e indiferentes aos danos sociais que podem causar a uma nação quando desencadeiam uma crise devido à fuga de capitais.

A estabilidade financeira das contas nacionais dos EUA começou a vacilar com o início da crise dos subprimes em 2008, que levou não só ao colapso de Wall Street, mas também à falência do conceituado banco de investimento Lehman Brothers. Mas, numa perspectiva estrutural, a crise teve início com a globalização: a migração em massa de empresas americanas em busca de mão-de-obra extremamente barata nos países em desenvolvimento, a começar pela República Popular da China.

Esta escolha tinha também uma base filosófica, para além da utilitarista, enraizada na procura do lucro máximo. A ideia subjacente era a de que a história posterior ao colapso da União Soviética tinha chegado ao fim; a humanidade viveria durante séculos num mundo fundado no mercado livre e num sistema político liberal-democrático, e que tudo isto seria supervisionado pela única potência global que restava: os Estados Unidos da América.

Claramente, num cenário destes, o saldo das contas externas e o evidente desequilíbrio da balança comercial dos EUA poderiam parecer irrelevantes. Quem poderia questionar a hegemonia americana sobre a situação das contas externas se os próprios países estrangeiros fossem o campo de caça de Washington?

Contudo, com o tempo, emergiram duas potências capazes de competir com os Estados Unidos. A primeira, a Rússia de Putin, apesar de não possuir a força demográfica e industrial necessária para desafiar Washington, recuperou o seu antigo estatuto de potência mundial em termos militares.

Além disso, Moscovo pode orgulhar-se de um papel de liderança no estratégico mercado energético. Por outro lado, a República Popular da China atingiu um enorme peso demográfico, aliado a uma base industrial cada vez mais importante, levando a que o Império Celestial fosse considerado a "fábrica do mundo".

Ademais, os Estados Unidos foram ainda mais prejudicados pela peculiar estrutura da União Europeia, baseada em mão-de-obra barata e energia barata importada da Rússia. Estas circunstâncias levaram a Europa (ou melhor, os países do norte da Europa, a começar pela Alemanha) a conquistar o riquíssimo (mas cada vez mais endividado) mercado americano.

A hegemonia americana ficou no fogo cruzado nas frentes comercial (União Europeia), industrial (China) e militar (Rússia), e a situação tornou-se cada vez mais perigosa, até que Washington decidiu desencadear um grande conflito europeu para cortar o cordão umbilical energético entre a Europa e a Rússia.

O método escolhido foi o clássico e comprovado: submeter as vastas extensões das planícies sármatas da Ucrânia ao domínio ocidental. A Rússia tolera tudo, exceto as tropas ocidentais no rio Dnieper. E era precisamente isso que o Ocidente ameaçava quando falava da adesão de Kiev à NATO.

A crise ucraniana, que eclodiu em 2014, teve dois efeitos geopolíticos significativos: por um lado, o efeito amplamente esperado de colocar os vassalos europeus, privados da energia barata da Sibéria, de volta na linha, e, por outro, o efeito inesperado de forjar uma aliança aparentemente inquebrável entre Moscovo e Pequim.

E assim chegamos aos dias de hoje, com os Estados Unidos atolados numa crise cada vez mais grave devido às suas contas externas cada vez mais desastrosas (o seu défice na posição financeira líquida ultrapassa agora os 27 biliões de dólares) e numa posição geoestratégica que um comentador astuto apelidou de Zugzwang, aquela condição particular de um jogador de xadrez "forçado a mover-se", mas cuja situação se agrava a cada movimento.

E esta é, aliás, a situação dos Estados Unidos, que abrange desde os conflitos comerciais com o mundo inteiro, ao rapto do presidente venezuelano, às reivindicações sobre a Gronelândia e à ameaça de intervenção ininterrupta em Cuba e no Irão.

Esta acção política dá aos interlocutores a impressão de que Washington vive um estado de completa confusão mental, o que, por sua vez, gera uma incapacidade para desenvolver uma estratégia racional capaz de travar o declínio americano.

Para sermos justos, contudo, é preciso observar que essa enorme crise geoestratégica e geoeconómica, agora de proporções históricas, não deve ser considerada uma crise exclusiva do sistema americano, mas do "sistema mundial" como um todo: enquanto o império americano declina, e com ele a sua moeda, o mundo ainda não conseguiu gerar uma moeda capaz de substituir o dólar como moeda corrente do comércio internacional e reserva de valor global.

Não basta afirmar que o império e a sua moeda estão em crise irreversível se os seus adversários não conseguem oferecer uma alternativa válida e credível. Este foi um tema que não passou despercebido aos políticos, economistas e estrategas chineses. Era dado como certo que o assunto estava a ser debatido nos bastidores da Cidade Proibida, em Pequim, tanto mais que só a China detém o poder económico para oferecer ao mundo uma alternativa ao dólar.

A este propósito, uma notícia do Financial Times de ontem fez um anúncio sensacional: o líder chinês Xi Jinping defendeu que o renminbi se torne uma moeda de reserva global.

Esta notícia foi publicada na Qiushi, a principal revista do Partido Comunista Chinês dedicada à teoria e à crítica marxistas. O artigo refere que Xi endossou a ideia de que a China deveria ter uma "moeda forte" que pudesse ser amplamente utilizada no comércio internacional, nos investimentos e nos mercados cambiais, e que alcançasse o estatuto de moeda de reserva.

Esta é uma notícia sensacional porque torna público o desafio da China à hegemonia dos EUA não só nas esferas monetária e financeira, mas também nas esferas política e geoestratégica.

Além disso, a disponibilidade da China para dar este passo histórico indica o seu desejo de abandonar o seu papel de "fábrica do mundo", dado que tornar o renminbi a moeda padrão para o comércio internacional e uma reserva de valor exige que esta moeda circule globalmente. O principal método para atingir este objectivo é que os seus emitentes comprem bens e serviços ao resto do mundo em troca da sua própria moeda.

Ademais, é evidente que esta perspectiva deverá conduzir à criação de grandes centros financeiros capazes de competir com Wall Street e a City de Londres. Neste sentido, a China tem vindo a preparar-se há anos com os centros financeiros de Hong Kong e Xangai.

Estamos a assistir a uma fase que ameaça mudar a face do "Sistema Mundial", embora, é preciso dizê-lo, nenhum império em declínio aceite o seu fim sem tentar bloquear a potência emergente que procura substituí-lo. Em breve veremos as contra-medidas de Washington.

 

24 dezembro 2025

Aumentam os crimes e genocídio de Israel em Gaza

A falta de medicamentos e consumíveis, está a dificultar cada vez mais a prestação de serviços de saúde em Gaza. As faltas mais graves são nos serviços de urgência.

A falta de material pode privar cerca de 200 mil doentes de cuidados de emergência, 100 mil doentes de cirurgias e aproximadamente 700 doentes de cuidados intensivos.

Esta situação deve-se às proibições e boicotes de Israel à entrada de camiões com alimentos e medicamentos em Gaza. Os médicos na Faixa de Gaza estão a lutar para salvar vidas, enquanto Israel continua a restringir a entrada de material médico essencial. «Perante estes números alarmantes, a redução constante, devido à ocupação, do número de camiões médicos que entram em Gaza (para menos de 30% das necessidades mensais) e a quantidade insuficiente de mantimentos disponíveis, o Ministério da Saúde apela urgentemente a todas as partes relevantes para que assumam plenamente as suas responsabilidades na implementação de intervenções de emergência», afirma o texto.

Quase todos os hospitais e instalações de saúde de Gaza foram atacados durante a guerra de agressão genocida, tendo sido danificadas mais de 125 unidades de saúde, incluindo 34 hospitais.

Israel impede que cerca de 1500 crianças passem a fronteira para ser tratadas no estrangeiro.

Pelo menos 1200 doentes, incluindo 155 crianças, morreram por não conseguirem sair de Gaza para receber cuidados médicos urgentes.

OMS alerta para má-nutrição no enclave

O director-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), afirmou este domingo que mais de 100 mil crianças e 37 mil mulheres grávidas e lactantes na Faixa de Gaza ainda deverão sofrer de má-nutrição aguda até Abril do próximo ano.

Apenas metade das instalações de saúde de Gaza estão parcialmente funcionais e com sérios problemas de medicamentos e materiais.

«Para ampliar os serviços que salvam vidas e expandir o acesso aos cuidados de saúde, a OMS apela à aprovação e entrada urgentes e aceleradas de material médico essencial, equipamentos e estruturas hospitalares pré-fabricadas», acrescentou.

Quase 71 mil palestinianos mortos no território

A ofensiva de Israel iniciada em Outubro de 2023 provocou pelo menos 70 937 mortos e 171 192 feridos.

Depois da entrada em vigor do mais recente cessar-fogo, a 10 de Outubro último, as forças israelitas mataram pelo menos 405 palestinianos e deixaram feridos 1115, refere a Algeria Press Service (APS). Um número indeterminado permanece sob os escombros, segundo as mesmas fontes.

Nota: Texto baseado no AbrilAbril de 24/12 e no comunicado da PressTV de 21/12.

 


22 dezembro 2025

No Reino Unido continuam as greves da fome dos presos políticos apoiantes da Palestina

Dois activistas britânicos presos, ligados ao colectivo Palestine Action foram levados de urgência para o hospital depois de o seu estado de saúde se ter deteriorado criticamente na sequência de uma greve de fome de 50 dias. Um perdeu 14 quilos desde a sua detenção, corre o risco de sofrer danos graves nos seus órgãos, e mo outro apresenta um declínio cognitivo devido à falta de fornecimento regular de vitaminas essenciais por parte das autoridades prisionais.

Manifestantes e famílias, exigem a sua libertação e o direito a um julgamento justo. Os activistas denunciam também a censura na prisão, incluindo a retenção de correspondência e chamadas telefónicas, e criticam o recurso à prisão preventiva por um período superior ao limite legal de seis meses.

 A este respeito, familiares e advogados alertaram que a recusa dos funcionários prisionais em prestar assistência básica neste contexto de perseguição política. Salientam que a criminalização dos protestos contra o complexo militar-industrial no Reino Unido reflecte o endurecimento das políticas repressivas contra aqueles que denunciam o fornecimento de armas a potências ocupantes, como o Estado genocida de Israel.

Esta luta faz parte de um movimento internacional de solidariedade e de setores progressistas na Europa que exigem o respeito pelo direito internacional e o fim da violência genocida.

A resistência destes jovens reclusos expõe a crise de legitimidade das democracias ocidentais que mantêm laços comerciais e militares com regimes acusados ​​de crimes contra a humanidade, priorizando os seus interesses em detrimento da vida. A crise humanitária na Faixa de Gaza em 2025 resultou em 405 mortes e 1.115 feridos desde o acordo de cessar-fogo de 11 de outubro, elevando o número total de mortos para 70.937 desde o início da agressão. A incapacidade de resgatar os desaparecidos sob os escombros e a morte de mil doentes à espera de transferência para tratamento médico no estrangeiro demonstram o impacto do cerco na população civil.

O bloqueio total de ajuda à população de Gaza está a provocar escassez de material para cirurgias cardíacas e emergências, colocando mais de 288 mil doentes em risco de complicações graves. Além disso, a insegurança alimentar aguda afecta 1,6 milhões de habitantes, agravando uma deterioração sem precedentes do sistema de saúde, que está a comprometer a sua capacidade de fornecer diagnósticos e tratamentos adequados no enclave.

Autor: TeleSUR: lf - NH

15 dezembro 2025

Povo da Venezuela mobiliza-se contra a pirataria e o roubo do petróleo nacional por parte dos EUA

Este sábado, a Venezuela foi palco de grandes protestos generalizados em vários estados, pelo povo venezuelano, que rejeita veementemente os atos de interferência do governo norte-americano e denunciou os atos de "pirataria internacional" perpetrados contra um petroleiro que transportava petróleo venezuelano.

Uma das maiores marchas começou na Plaza La Concordia e seguiu até à Plaza Miranda, estrategicamente localizada em frente à Avenida Baralt, em Caracas. Colunas de manifestantes de bairros operários como Magallanes de Catia, La Vega e Plaza Candelaria juntaram-se à marcha, amplificando a voz da condenação.

O protesto não se limitou ao Distrito da Capital. No estado de Miranda, os populares também saíram à rua numa marcha que se uniu à defesa da soberania nacional contra as ameaças externas.

Também no interior do país a adesão foi enorme. Em San Fernando de Apure, uma grande manifestação começou na Avenida Primero de Mayo e seguiu em direção ao icónico Monumento aos Pescadores numa mensagem clara contra a tentativa de pilhagem do petróleo venezuelano.

As concentrações massivas apoiam a denúncia oficial do Governo que qualificou «robo descarado» e «acto de piratería», «criminosa e ilegal» a retenção de um petroleiro venezuelano no Caribe por navios de guerra dos Estados Unidos. Esta nova agressão gerou rejeição por parte de governos como da China, da Rússia, de Cuba e do Irão, bem como de organizações como a ALBA-TCP, da Associação Americana de Juristas, e de movimentos sociais internacionais.

Aspetos-chave da agressão dos EUA no Caribe

Desde agosto passado que os EUA mantêm uma força militar significativa posicionada na costa da Venezuela, justificando-a como parte da luta contra a droga. Trump afirmou ainda que, para este efeito, lançará em breve ataques terrestres.

No âmbito destas operações, os EUA bombardearam alegados navios de tráfico de droga nas Caraíbas e no Pacífico, resultando em mais de 80 mortes, sem provas de que estivessem de facto a traficar narcóticos.
Numa escalada das ações violentas dos EUA na região, os militares norte-americanos atacaram um petroleiro na costa venezuelana.

Maduro afirma que o verdadeiro objectivo dos EUA é a "mudança de regime" para se apoderar da imensa riqueza de petróleo e gás da Venezuela. "A máscara deles caiu; o narcotráfico é 'fake news', é o petróleo que querem roubar".

A ONU e a própria DEA salientam que a Venezuela não é uma rota principal de tráfico de droga para os Estados Unidos, uma vez que mais de 80% da droga utiliza a rota do Pacífico.
O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos e os governos da Colômbia, México, Rússia e Brasil condenaram as ações dos EUA. Os especialistas descrevem os ataques a embarcações como "execuções sumárias" que violam o direito internacional. 

Vídeos podem ser vistos AQUI

Seis presos políticos foram hospitalizados no Reino Unido após 39 dias em greve de fome. Governo não responde.

Os presos, apoiantes da Palestina, iniciaram a greve de fome no dia 2 de Novembro para exigirem um julgamento justo, a libertação sob fiança, o encerramento da prisão, o levantamento da proibição da organização Palestine Action e o fim da censura à sua correspondência. O protesto tornou-se na maior greve de fome coordenada nas prisões britânicas desde 1981, na Irlanda.

Dos oito grevistas, um já foi hospitalizado duas vezes, e outros cinco continuam hospitalizados e estão em estado crítico. Apesar disso, o Ministro da Justiça, David Lammy, não respondeu aos pedidos de diálogo nem aos apelos de várias organizações de solidariedade.

A campanha de apoio aos grevistas da fome já reuniu mais de 5.000 assinaturas e conta com o apoio do Partido Verde, do Your Party, do Partido Nacional Escocês, do Plaid Cymru, de parlamentares trabalhistas e de grupos de solidariedade para com a Palestina. As famílias e os activistas exigem que o Ministro da Justiça se reúna imediatamente com os representantes dos grevistas da fome antes da suspensão das actividades parlamentares.

Os co-líderes e parlamentares do Partido Verde escreveram-lhe publicamente ao ministro, enquanto o Your Party solicitou uma reunião há mais de um mês, sem ainda receberem resposta. A causa dos grevistas da fome é apoiada pelo Partido Verde, pelo Your Party, pelos membros do SNP, pelo Plaid Cymru e por vários deputados trabalhistas, bem como pela Campanha de Solidariedade com a Palestina e por grupos de solidariedade com a Palestina em todo o Reino Unido.

Na quarta-feira, 10 de dezembro de 2025, John McDonnell apresentou uma moção de emergência no Parlamento, assinada por 40 deputados, manifestando preocupação com os maus-tratos na prisão e com a rápida deterioração do estado de saúde dos presos.
Fonte aqui

09 dezembro 2025

Israel com apoio dos EUA comete todos os crimes

A polícia israelense, acompanhada por funcionários municipais, entrou à força no prédio da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados Palestinos, Unrwa, em Jerusalém Oriental, nesta segunda-feira.

Em mensagem divulgada na rede social X, o comissário-geral da Unrwa, Philippe Lazzarini, afirmou que as forças policiais entraram no local usando motos, caminhões e empilhadeiras, cortaram a comunicação e apreenderam móveis e equipamentos de informática.

“Desrespeito flagrante”

A bandeira da ONU foi retirada e substituída por uma bandeira israelense.

O chefe da Unrwa afirmou que esta ação representa um “desrespeito flagrante das obrigações de Israel enquanto Estado-membro das Nações Unidas de proteger e respeitar a inviolabilidade das instalações da organização”..../...

Convenções internacionais e obrigações legais

Israel é parte da Convenção sobre os Privilégios e Imunidades das Nações Unidas, que estabelece a inviolabilidade das instalações da ONU e a imunidade dos seus bens e ativos contra busca, apreensão e processos legais.

Lazzarini sublinhou ainda que a Corte Internacional de Justiça, CIJ, já afirmou que Israel tem obrigação de cooperar com a Unrwa e com outras agências da ONU. O comissário-geral alertou que permitir este tipo de ação cria um precedente perigoso para a presença da ONU em outras partes do mundo.

A Unrwa presta serviços em saúde, educação e outras áreas para cerca de 6 milhões de refugiados palestinos em cinco localidades no Oriente Médio, incluindo o Território Palestino Ocupado.

05 dezembro 2025

Mais de 64.000 crianças palestinianas foram mortas ou feridas por Israel

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), a Rede Global de Clusters de Protecção e a Área de Responsabilidade de Protecção da Criança alertaram que mais de 64.000 crianças palestinianas foram mortas ou feridas por Israel na Faixa de Gaza desde o início da sua mais recente campanha genocida contra a população palestiniana, em Outubro de 2023.

Em comunicado, as organizações informaram que 658.000 crianças abandonaram a escola devido à devastação causada pela agressão sistemática de Israel, que fez mais de 70.000 mortos no enclave costeiro.

“Estão expostas a violência implacável, repetidas deslocações e severas privações”, denunciou o comunicado. As instituições alertaram que, como consequência das ações criminosas de Israel, mais de 11.000 crianças sofreram ferimentos graves e necessitam de reabilitação a longo prazo e apoio em saúde mental.


Na terça-feira, os meios de comunicação locais noticiaram o assassinato de uma criança e de um jornalista num ataque israelita à Cidade de Gaza, uma agressão levada a cabo em flagrante violação dos acordos de cessar-fogo que entraram em vigor a 11 de Outubro.

O Ministério da Saúde de Gaza informou que o número de palestinianos mortos ultrapassa os 70.000, a maioria crianças e mulheres, enquanto 170.986 pessoas ficaram feridas. Alertou ainda que ainda há vítimas presas sob os escombros, onde as equipas de ambulâncias e da defesa civil enfrentam dificuldades devido às constantes ameaças e restrições impostas pela ocupação israelita.

As autoridades palestinianas relatam números alarmantes de ataques israelitas contra a população civil, para além de denunciarem crimes de guerra e violações do direito internacional e dos direitos humanos por parte desta entidade sionista.

Vários governos, especialistas e analistas concordam que a Palestina está a enfrentar um genocídio às mãos de Israel, no âmbito das suas ações colonialistas na nação árabe desde 1948, após a alocação ilegal, com o apoio da ONU, de parte do território palestiniano a um grupo de cidadãos europeus para fins de colonato, sem o consentimento da população palestiniana original.

Fonte TeleSur 

04 dezembro 2025

Israel não respeita o cessar fogo. Continua o genocídio

São já 356 mortes e 908 feridos desde que o cessar-fogo entrou em vigor a 11 de outubro (1).

Muitas vítimas permanecem sob os escombros e nas estradas e as ambulância e equipas de socorro não conseguem chegar até elas.

Os novos números elevam o número total de vítimas humanas da ofensiva israelita contra a Faixa de Gaza desde outubro de 2023 para, pelo menos, 70.103 mortos e 170.985 feridos, segundo a mesma fonte.

Mais de 100.000 palestinianos morreram na guerra.

As guerras e a instabilidade política têm um impacto dramático. Um estudo recente do Instituto Max Planck de Investigação Demográfica tentou fornecer uma estimativa quantitativa da devastação provocada pela Guerra de Gaza (2), que não coincide com os dados disponíveis.

“O nosso objetivo é estimar a esperança de vida e a perda de vidas causadas pelo conflito em Gaza, na Palestina, de uma forma que tenha em conta dados incompletos ou dispersos”, afirma Ana Gómez-Ugarte, uma das diretoras do estudo.

O estudo conclui que mais de 100.000 pessoas morreram na Guerra de Gaza. Entre 7 de outubro de 2023 e o final de 2024, 78.318 pessoas morreram como resultado direto da guerra e, até 6 de outubro deste ano, o número de mortos ultrapassou provavelmente os 100.000.

“Devido a esta mortalidade sem precedentes, a esperança de vida em Gaza caiu 44% em 2023 e 47% em 2024 em comparação com o que teria sido sem a guerra, o que equivale a perdas de 34,4 e 36,4 anos, respetivamente”, afirma Gómez-Ugarte.

1) https://www.lorientlejour.com/article/1486757/au-moins-356-palestiniens-tues-par-larmee-israelienne-depuis-le-debut-de-la-treve-selon-le-ministere-de-la-sante-de-gaza.html
(2) https://pophealthmetrics.biomedcentral.com/articles/10.1186/s12963-025-00422-9 

Israel, oito décadas a espezinhar o direito internacional.

De uma notícia do Público de Espanha. 

As Nações Unidas e os tribunais internacionais emitiram dezenas de resoluções contra o governo israelita pelas suas políticas de ocupação e apartheid nos territórios palestinianos. Israel ignorou-as sistematicamente.

A primeira resolução da ONU sobre a causa palestiniana, foi emitida em 1947. Foi a primeira resolução a reconhecer a criação do Estado de Israel, mas também a existência do Estado palestiniano. Foi a primeira — de muitas — que os sucessivos governos de Telavive violaram.

Os debates arrastaram-se por quase vinte dias na passadeira verde da ONU. Representantes da comunidade judaica discursaram quatro vezes. Os da população palestiniana discursaram menos de metade dessas vezes. A reunião culminou com a partição do enclave em dois Estados: um árabe e outro judeu. “Esta solução foi profundamente colonial.” A ONU dividiu a Palestina sem consultar previamente o povo palestiniano e legitimou o projeto europeu em terras árabes. Israel manteve 54% do território, mas após a Nakba de 1948, ocupou 78%. E actualmente, nem sequer reconhece este plano de partilha como um ponto de referência válido. A população judaica não representava nem um terço do total de habitantes da Palestina nessa época.

O Estado de Israel nasceu da limpeza étnica

Israel aceitou a partilha, ou seja, aceitou a sua configuração como Estado. "Esta é a única parte da resolução que os israelitas cumpriram". "O projecto sionista começou com uma abordagem absolutamente colonial. O Estado de Israel nasceu da limpeza étnica: houve expulsões e massacres. Os refugiados que tiveram de fugir das suas casas nessa altura ainda não puderam regressar. E não podemos esquecer isso, por mais que as circunstâncias sejam agora diferentes e os crimes contra a humanidade, juntamente com o genocídio, tenham relegado este facto para segundo plano."

Resolução 194

Esta é precisamente uma das questões abordadas na Resolução 194 da Assembleia Geral da ONU, adoptada em Dezembro de 1948. O texto menciona explicitamente o "direito de regresso" dos refugiados palestinianos que foram expulsos das suas aldeias após a criação do Estado de Israel. Estabelece ainda que este direito deve ser cumprido "o mais rapidamente possível". A realidade é que passaram 77 anos. E nenhum refugiado palestiniano conseguiu regressar ao que os seus pais ou avós certamente chamavam de lar. "Esta resolução continua a ser a pedra basilar do direito internacional na Palestina e um ponto essencial para a libertação do povo palestiniano. Israel não só deixou de a cumprir, como também legislou em sentido contrário."

Resolução 242

A Resolução 242 é também uma das mais conhecidas. Nesta resolução, a Assembleia Geral da ONU exige a retirada do exército israelita dos territórios ilegalmente ocupados. O resultado é, mais uma vez, o mesmo das resoluções anteriores: Israel ignora-a desde a sua adopção. "A própria ocupação é um crime de agressão, tal como descrito no Estatuto de Roma". "Os israelitas contestam sistematicamente e respondem dizendo que os territórios ocupados também não estavam anteriormente sob soberania palestiniana, mas sim jordana e egípcia; por isso referem-se a eles como territórios contestados — ou seja, áreas sobre as quais dois ou mais países reivindicam soberania. A ocupação nunca terminou."

03 dezembro 2025

A Colômbia restabelece o serviço aéreo civil com a Venezuela e convida o mundo a fazer o mesmo.

O presidente colombiano, Gustavo Petro, anunciou na segunda-feira que o seu país retomou os voos de e para a Venezuela, no meio de ameaças e agressões dos Estados Unidos nas Caraíbas, através de táticas de pressão empregues pela administração Trump.

"A Colômbia está a restabelecer o serviço aéreo civil com a Venezuela e convida o mundo a fazer o mesmo", declarou Petro nas redes sociais, acrescentando que a situação atual exige canais diplomáticos para a sua resolução.

"É tempo de diálogo, não de barbárie", declarou Petro, sublinhando que "os EUA não têm o direito de fechar o espaço aéreo venezuelano. Podem fazê-lo com as suas próprias companhias aéreas, mas não com as do mundo".

A mensagem de Petro foi acompanhada por uma entrevista ao jornal La Razón com a ministra dos Transportes da Colômbia, María Fernanda Rojas Mantilla, que questionou o alerta emitido pela Administração Federal de Aviação (FAA) dos EUA em relação aos voos para a Venezuela, uma medida que descreveu como politicamente motivada e uma violação dos princípios fundamentais da aviação internacional.

A FAA emitiu um alerta a 21 de novembro contra a Venezuela, alegando uma alegada deterioração das condições de segurança e um aumento da atividade militar em território venezuelano. Esta ação dos EUA levou seis companhias aéreas internacionais a suspender os seus voos para a Venezuela, entre as quais a Iberia, a TAP, a Avianca, a Caribbean Airlines, a GOL e a Latam.

Aspetos-chave da agressão dos EUA:

Desdobramento militar: Desde agosto passado que os EUA mantêm uma força militar significativa destacada na costa da Venezuela, justificando-a como parte da luta contra o narcotráfico. Washington anunciou posteriormente a Operação Lança do Sul, com o objectivo oficial de "eliminar os narcoterroristas" do Hemisfério Ocidental e "proteger" os Estados Unidos "das drogas que estão a matar" os seus cidadãos.

Operações letais: No âmbito destas operações, foram realizados atentados bombistas contra alegados navios de tráfico de droga, resultando em mais de 70 mortes e sem provas de que estivessem realmente a transportar drogas.

Acusações e recompensa: Washington acusou o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, sem provas, de liderar um cartel de droga e duplicou a recompensa pela sua captura.

Posição venezuelana: Maduro denuncia que o verdadeiro objetivo dos EUA é a "mudança de regime" para se apoderar da imensa riqueza de petróleo e gás da Venezuela.

Falta de apoio: Organizações como a ONU e a própria DEA salientam que a Venezuela não é uma rota principal de tráfico de droga para os Estados Unidos, uma vez que mais de 80% da droga que circula na região chega pela rota do Pacífico. 

Condenação internacional: A Rússia, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos e os governos da Colômbia, México e Brasil condenaram as ações dos EUA. Os especialistas descrevem os ataques a embarcações como "execuções sumárias" que violam o direito internacional.

Objectivo: Petróleo

Entretanto um Tribunal dos EUA decide venda da PDV Holding e sua filial petrolífera venezuelana CITIGO

A Venezuela acusou os Estados Unidos de tentarem apoderar-se das reservas de petróleo do país por meio da força militar, segundo uma carta enviada pelo presidente Nicolás Maduro ao secretário-geral da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo).

A filial da estatal venezuelana PDVSA estava sob o controle de uma diretoria nomeada pela oposição no país sul-americano, depois de Washington ter entregue o comando da empresa em 2019, após não reconhecer a reeleição do presidente Nicolás Maduro.

A vice-presidente venezuelana, Delcy Rodríguez, leu nesta terça-feira um comunicado no qual "rejeita energicamente a decisão adotada no procedimento judicial de 'venda forçada' da empresa Citgo".

"A Venezuela não reconhece nem reconhecerá a venda da Citgo", acrescentou Rodríguez, que responsabilizou a oposição liderada por María Corina Machado, pela venda da empresa.

Horacio Medina, presidente diretoria nomeada pela oposição que controla a Citgo, disse à AFP que vai contestar a decisão.

O valor da Citgo é estimado em cerca de 10 mil milhões de dólares, segundo Medina.

 

01 dezembro 2025

Hoje, países da África, América Latina e Ásia podem dizer NÃO a Washington.

Da análise de John Mearsheimer, professor de ciência política na Universidade de Chicago e teórico da escola neorrealista em relações internacionais, que se apoia nos escritos de Richard D. Wolff, Professor Emérito de Economia na Universidade de Massachusetts, em Amherst, Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da New School University, em Nova Iorque e que também lecionou Economia na Universidade de Yale, na City University of New York e na Universidade de Paris I (Sorbonne), que pode ser lida aqui, extraí o seguinte resumo. Diz John Mearsheimer:

O professor Richard Wolf, um dos economistas marxistas mais respeitados dos Estados Unidos, acaba de apresentar a análise mais devastadora que já ouvi sobre o fracasso estratégico do Ocidente. 

Seu alerta não é uma opinião; é a autópsia de um império que, sem saber, está cometendo suicídio. As sanções concebidas para estrangular a Rússia acabaram criando algo muito pior para Washington e Bruxelas: uma ordem mundial multipolar que desafia a hegemonia americana em sua própria essência. 

Enquanto o Ocidente celebra vitórias táticas no campo de batalha, Moscou está vencendo uma guerra completamente diferente: a guerra para desmantelar o domínio do dólar e o controle económico ocidental. E o pior de tudo é que a maioria dos líderes ocidentais ainda não percebeu que está perdendo. 

Quando a Rússia lançou sua operação militar especial na Ucrânia em fevereiro de 2022, vi líderes ocidentais cometerem exatamente o mesmo erro fatal que venho documentando ao longo da minha carreira: confundiram indignação moral com pensamento estratégico. 

A resposta foi imediata e previsível: o maior pacote de sanções da história moderna. Congelamento de ativos, exclusão do sistema SWIFT, embargo energético e proibição de exportação de tecnologia avançada. O objetivo era cristalino: estrangular a economia russa até o colapso do regime. 

Como realista, eu sabia que essa estratégia se baseava numa premissa muito perigosa: a de que a Rússia não tinha alternativas. Mas Richard Wolf percebeu o mesmo que eu. O Ocidente não estava travando a guerra que pensava estar travando. Enquanto a OTAN se concentrava na contenção militar, a Rússia jogava um jogo completamente diferente: o desmantelamento sistemático da hegemonia económica ocidental. 

E Vladimir Putin estava prestes a demonstrar que o verdadeiro pilar do poder americano, o domínio do dólar, era muito mais frágil do que qualquer um imaginava. 

O primeiro choque veio em poucas semanas. O rublo, que analistas ocidentais previam que se tornaria sem valor, não só se estabilizou como se fortaleceu. No final de 2022, já havia se valorizado em relação ao dólar. O Produto Interno Bruto (PIB) da Rússia, que economistas do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial previam que desceria 15% ou mais, mal se contraiu antes de se recuperar a taxas que ridicularizaram todos aqueles que apostaram em seu colapso. 

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O verdadeiro terremoto foi estrutural. Richard Wolf chama isso de adaptação estratégica, à mudança sistemática da Rússia em direção ao que os economistas hoje chamam de coligação expandida do Sul Global. China, Índia, Irão, Turquia, Arábia Saudita, Brasil, Indonésia, Emirados Árabes Unidos — países que representam mais da metade da população mundial e uma parcela crescente do PIB global. 

O que mais me impressionou foi a rapidez dessa reorientação. Relações comerciais que normalmente levam décadas para se consolidar foram criadas em meses. O comércio bilateral entre a Rússia e a China cresceu 30% somente no primeiro ano. A Índia aumentou suas importações de petróleo russo em mais de 700%. Esses não foram ajustes temporários; foram mudanças permanentes no cenário económico global. 

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A Europa, num ato do que Wolf chama de arrogância moral, cortou o fornecimento de gás russo barato da noite para o dia. O suicídio económico foi imediato e devastador. Centenas de fábricas alemãs fecharam. 

A indústria francesa começou a ser transferida para os Estados Unidos e a Ásia. A competitividade europeia evaporou-se em questão de meses. Os preços da energia triplicaram e quadruplicaram em algumas regiões, impulsionando os principais fabricantes para os mercados americanos, onde subsídios e energia mais barata os aguardavam de braços abertos. 

Testemunhei o colapso de cadeias de suprimentos inteiras em tempo real. Fábricas de produtos químicos que haviam sido lucrativas por décadas de repente se tornaram deficitárias. A produção de aço, a espinha dorsal da indústria europeia, caiu em dois dígitos. O setor automóvel, que já enfrentava dificuldades com a transição para a eletrificação, sofreu um golpe adicional com os custos de energia, que o tornaram cada vez menos competitivo em relação aos rivais asiáticos. 

Entretanto, a Rússia redirecionou seus fluxos de energia para o leste com uma eficiência surpreendente. As importações chinesas de petróleo russo atingiram níveis recordes, com Pequim garantindo contratos de longo prazo a preços reduzidos. 

A Índia tornou-se o maior cliente de Moscovo fora da China, aumentando suas compras em mais de 1.000% em 18 meses. Até mesmo aliados tradicionais dos EUA, como a Turquia, aumentaram discretamente suas importações de energia da Rússia. Mas o desenvolvimento mais significativo foi a construção de nova infraestrutura, a expansão do gasoduto Força da Sibéria. 

Novas rotas pela Ásia Central, terminais de gás natural liquefeito voltados para o mercado asiático. A Rússia estava literalmente reconfigurando a rede energética da Eurásia, afastando-a da Europa. O mapa energético da Eurásia foi redesenhado em meses, não em décadas. E a Europa, que havia voluntariamente abdicado da segurança energética por razões morais, viu-se em desvantagem permanente na produção global. 

No entanto, a energia foi apenas o começo. A transformação mais profunda afeta algo muito mais ameaçador para a hegemonia americana: o próprio sistema do dólar. Durante 80 anos, os Estados Unidos desfrutaram do que os economistas franceses chamaram de privilégio exorbitante — a capacidade de imprimir dinheiro que o resto do mundo é obrigado a aceitar porque o comércio internacional é realizado em dólares. 

Esse sistema permitiu que Washington financiasse déficits enormes, mantivesse uma presença militar global e transformasse as sanções em uma arma devastadora. Richard Wolf alerta que essa era está chegando ao fim não por meio de uma derrota militar, mas por meio de um desvio sistémico. 

Os países do BRICS — Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — aceleraram o desenvolvimento de sistemas de pagamento alternativos. A Organização de Cooperação de Xangai está expandindo sua arquitetura financeira e, mais importante, os principais produtores de petróleo estão aceitando pagamentos em yuan, rublo e até mesmo rúpia em vez de dólares. 

Os números são impressionantes. Em 2021, apenas 2% do comércio entre Rússia e China foi realizado em suas moedas nacionais. Em 2025, esse número ultrapassará 75%. A Arábia Saudita, o aliado mais antigo dos Estados Unidos no Oriente Médio, começou a aceitar yuan para suas vendas de petróleo à China, algo que seria inimaginável há poucos anos. 

A expansão do BRICS Plus em 2023 incorporou Irão, Egito, Emirados Árabes Unidos e Etiópia, enquanto dezenas de outros países se apresentaram para aderir. Isso não é simbolismo diplomático; é a institucionalização de uma infraestrutura financeira não ocidental, o novo banco de desenvolvimento como alternativa ao Banco Mundial, o sistema de pagamentos do BRICS desafiando o domínio do SWIFT. Cada acordo comercial bilateral firmado fora do dólar representa uma pequena brecha na hegemonia financeira dos EUA, mas o efeito cumulativo é revolucionário. 

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Os países estão se preparando para uma ordem mundial pós-americana, não por meio de revoluções, mas sim por meio de um desapego gradual dos sistemas dominados pelo Ocidente. Richard Wolf chama isso de despertar da soberania: as nações redescobrindo que têm opções. 

O mundo unipolar, onde Washington ditava as regras, está sendo substituído por uma realidade multipolar, onde o poder é distribuído entre diversos centros, mas a transformação vai além da economia; ela é psicológica, cultural e civilizacional. Por três décadas, os valores, as instituições e os modelos de desenvolvimento ocidentais foram apresentados como universais e inevitáveis. 

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Richard Wolf não se limita a expressar uma opinião incómoda. Ele a fundamenta com uma avalanche de dados que nenhum think tank de Washington consegue refutar sem cair na caricatura. Seu argumento central é devastador justamente por ser empírico. O suposto fim da história não foi uma lei histórica, mas uma aposta ideológica que fracassou e continua fracassando às claras, em tempo real, diante de todo o planeta. 

Comecemos pela China, porque é o elefante na sala que ninguém mais pode ignorar. Desde 1978, quando a descentralização abriu a economia sem abrir o sistema político, o Partido Comunista Chinês tirou mais de 800 milhões de pessoas da extrema pobreza, segundo critérios do Banco Mundial. Isso equivale a resgatar, em quatro décadas, uma população maior do que toda a Europa e a América do Norte juntas. .../...

Em 2024, o PIB da China já havia ultrapassado o dos Estados Unidos em paridade do poder de compra e, segundo projeções do FMI, essa diferença aumentará na próxima década. Tudo isso sob um sistema que qualquer livro didático de ciência política ocidental da década de 1990 teria considerado insustentável a médio prazo. Trinta anos depois, o sistema não só permanece em vigor, como define o século XXI. 

Mas a China não está sozinha. A Índia, a maior democracia do mundo, seguindo o mantra repetido à exaustão, decidiu nos últimos 10 anos que ser uma democracia não significa imitar o modelo liberal anglo-saxão. Sob Narendra Modi, o país abraçou um nacionalismo hindu exacerbado, restringiu a liberdade de imprensa, aprovou leis de cidadania que discriminam com base na religião, bloqueou a internet na Caxemira por meses e perseguiu ONGs e figuras da oposição com uma agressividade que teria escandalizado colunistas ocidentais se o protagonista fosse a Venezuela ou a Bielorrússia. 

.../... O Vietname é talvez o caso mais emblemático. Um país governado pelo mesmo Partido Comunista que venceu a guerra contra os Estados Unidos mantém hoje uma das economias de crescimento mais rápido do planeta, 6,8% ao ano, fábricas da Samsung, Intel e Nike, acordos de livre comércio com a União Europeia, com o Reino Unido e com o CPTP, e um índice de aprovação governamental que gira em torno de 90%, segundo pesquisas independentes. 

O Vietname dobrou seu PIB per capita em apenas 15 anos. Reduziu a pobreza extrema de 70% para pelo menos 5%, e fez isso sem permitir uma oposição política real, com censura rigorosa e com um modelo que combina planeamento quinquenal com abertura seletiva ao capital estrangeiro. 

A Rússia merece um capítulo à parte, pois seu caso foi o que mais feriu o orgulho ocidental nos últimos três anos. 

Em fevereiro de 2022, líderes europeus e americanos anunciaram, quase com júbilo, o Armagedom financeiro contra Moscovo. Biden falou em transformar o rublo em entulho. A UE prometeu que a economia russa retrocederia décadas. Mais de 15.000 sanções depois. O regime mais severo já imposto a um país de grande porte, os resultados são os seguintes. A Rússia cresceu 3,6% em 2023 e a projeção é de um crescimento adicional de 3% em 2024, segundo o FMI — mais do que a Alemanha, a França ou o Reino Unido. O desemprego está em um nível historicamente baixo de 2,9%. O rublo, após uma desvalorização inicial, estabilizou-se e agora está mais forte em relação ao euro do que antes da guerra. 

A Rússia ultrapassou a Arábia Saudita como o maior exportador de petróleo para a China e a Índia. Está vendendo mais trigo do que nunca, quase 50 milhões de toneladas anualmente. Inaugurou a rota marítima do Ártico. Assinou acordos de gás de 30 anos com Pequim e viu países que supostamente a isolariam — Turquia, Índia, Brasil, África do Sul e Indonésia — multiplicarem seu comércio bilateral. 

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O mundo do século XXI não se assemelhará a Washington ou Bruxelas. Ele se assemelhará a si mesmo: diverso, híbrido, pragmático, por vezes autoritário, frequentemente caótico, mas definitivamente não subserviente. E quanto mais cedo aceitarmos isso, menos dolorosa será a transição, porque a alternativa não é manter a velha ordem — isso já é impossível. A alternativa é decidir se a nova ordem nascerá da cooperação ou do confronto. .../...

E aqui, com o factos mostrados, termina a seleção das análises de John Mearsheimer e Richard D. Wolff uma vez que o texto original segue com prognósticos subjetivos e opiniões que poderão ser contrariados.