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17 março 2013

Eleição papal: um convite à meditação


Sumo Pontífice ou sumo decaimento da honestidade intelectual e da elevação civilizatória?

Por ser muito atual e uma reflexão de grande interesse, publico partes de um texto editado no Público, pelo professor e filósofo João Maria de Freitas Branco que se interroga: "Fará sentido um ateu preocupar-se com o que está a acontecer na Igreja Católica" e responde: "Qualquer pessoa de bem deseja que os países, as instituições, as elites do poder sejam mostra de elevação, de crescimento civilizatório, de salubridade ético-política, de banimento daquilo a que Kant chamou menoridade". 

E porque "A sucessão de acontecimentos no Vaticano é de inequívoca relevância(...) para todo o sujeito intelectualmente desperto, inteligentemente motivado a permanecer em estado de vigília cívica" retira algumas conclusões:

Uma primeira, "a religião não melhora as pessoas, não aperfeiçoa o ser humano. A Cúria, composta, em teoria, pelos homens de mais densa fé religiosa, é afinal uma montra de horrores – vícios, abusos, traições, assédios morais, ou, para tudo dizer com católica terminologia, é uma montra barroca repleta de pecados – de grandes pecados (pedofilia, fraude, negócio de armas)".



Conclui ainda que "os cardeais são vistos na azáfama do manobrismo político, do jogo de influências, da luta dos lóbis (mais ou menos gays)(...) todos eles, sem excepção, declaram que “é o Espírito Santo que vai decidir quem é o novo Papa”. Interroga: "Pode isto merecer consideração? Então os Srs. Cardeais insultam o Senhor de forma tão descarada? Se é verdadeira a divina intervenção do Espírito Santo na escolha papal, porquê então a azáfama? Porquê tanta preocupação terrena, tanto jogo político de bastidores, tanto afã no arquitectar de influências, tanto manobrismo de fazer inveja a qualquer partido político? Como podem os cardeais ser tão descrentes da influência divina? Como podem estar tão despidos de fé? Não ficam os católicos horrorizados com essa nudez herética? 

Depois diz: "Imagine-se que a partir de hoje se estabelecia que Portugal passava a ser um Estado religioso, como os há com fartura no mundo islâmico. Imagine-se que as mulheres lusas ficavam proibidas de votar e de exercer o cargo de Presidente da República, primeiro-ministro, ministro, etc. Que diriam as nossas católicas? Como reagiriam? Será que se resignavam, advogando a docilidade de rebanho? Ficariam passivamente indiferentes a essa escabrosa injustiça, quando a nobre ideia de Igualdade, pilar civilizacional, triunfou há mais de duzentos anos? Não posso nem quero acreditar que assim fosse. Porém, assim é quando em vez de Portugal se fala do Vaticano".

Pergunta ainda: "É admissível que uma religião possua um Estado? Como aceitar com tranquilidade, sem sobressalto ético-político-cultural, a existência no coração da Europa de um Estado religioso, decorridos que estão mais de duas centúrias desde o triunfo da Revolução Americana e da Francesa que nos legaram a noção de Estado de direito democrático..."

João Maria de Freitas Branco recorda que, na Igreja, tudo é permitido desde que seja dito que é vontade de Deus, e imagina ele "quando for dar uma aula, fazer uma conferência ou botar palavra em letra de forma posso dispensar o esforço do estudo sério e abraçar o atraente e vantajoso facilitismo da pura imaginação à solta. Poderei então apregoar descobertas fantásticas, evocando conversas com uma fada empoleirada no pinheiro do meu jardim ou com o extraterrestre que veio tomar o pequeno-almoço a minha casa, estacionando o disco voador à minha porta, ou até uma cavalgada com as renas do Pai Natal".

Por fim interroga-se: "Como é que esta avalanche múltipla de desonestidade intelectual desavergonhada não gera vagas de indignação do tamanho das do tão em voga canhão da nossa costa oceânica, vagas apropriadamente nazarenas? Como pode esta imensa colecção de despautérios não gerar movimentos de católicos indignados? Como se pode tolerar tanto arcaísmo intelectual, tanto anacronismo político-social, tantos maus tratos infligidos aos valores civilizacionais, tanta presença de deficientes morais e intelectuais no poder?".
O texto completo pode ler-se (aqui).

18 fevereiro 2013

A Igreja Católica

O que nos mostra a renúncia do Papa

A propósito da renúncia do Papa, em Carta Maior estão narrados factos que merecem ser analisados para se compreender o que é a Igreja Católica no presente.
Não se trata de querelas teológicas. É o dinheiro, as contas sujas do banco do Vaticano, os escândalos cada vez mais frequentes, a corrupção, a pornografia e a pedofilia, a luta pelo poder do grande capital, o apoio às políticas mais reacionárias, às ditaduras de Estados, que estão na origem da inédita renúncia do papa.

A Igreja Católica é hoje um ninho de corvos pedófilos, corruptos, ladrões sedentos de poder, aliados ao grande capitalismo internacional, e por isso imunes e capazes de tudo para defender o seu poder pessoal. A hierarquia católica mostra a sua decomposição moral, tal como os partidos de direita executores da política capitalista que domina o mundo.



O
diretor da École Pratique des Hautes Études de Paris (Sorbonne), Philippe Portier

Do artigo é de Eduardo Febbro, que se apoia em Philippe Portier, retirei as seguintes pistas de raciocínio:
"o papa, encarna o que o diretor da École Pratique des Hautes Études de Paris (Sorbonne), Philippe Portier, chama “uma continuidade pesada” de seu predecessor, João Paulo II, descobriu (...) os abismos nada espirituais nos quais a igreja havia caído: corrupção, finanças obscuras, guerras fratricidas pelo poder, roubo massivo de documentos secretos, luta entre facções, lavagem de dinheiro".

"Descobriu" que "O Vaticano era um ninho de hienas enlouquecidas, um pugilato sem limites nem moral alguma onde a cúria faminta de poder fomentava delações, traições, artimanhas e operações de inteligência para manter suas prerrogativas e privilégios...".

"o Vaticano foi um dos Estados mais obscuros do planeta. Joseph Ratzinger teve o mérito de expor o imenso buraco negro dos padres pedófilos, mas não o de modernizar a igreja ou as práticas vaticanas".



A reação, a extrema direita quer mais

Bento XVI foi, como assinala Philippe Portier, um continuador da obra de João Paulo II: “desde 1981 seguiu o reino de seu predecessor acompanhando vários textos importantes que redigiu: a condenação das teologias da libertação dos anos 1984-1986; o Evangelium vitae de 1995 a propósito da doutrina da igreja sobre os temas da vida; o Splendor veritas, um texto fundamental redigido a quatro mãos com Wojtyla”. Esses textos citados pelo especialista francês são um compêndio prático da visão reacionária da igreja sobre as questões políticas, sociais e científicas do mundo moderno.



Correspondência secreta do Papa

Depois do escândalo provocado pela divulgação da correspondência secreta do papa e das obscuras finanças do Vaticano, a cúria romana (...) contratou o jornalista estadunidense Greg Burke, membro da Opus Dei e ex-integrante da agência Reuters, da revista Time e da cadeia Fox. Burke tinha por missão melhorar a deteriorada imagem da igreja.

A divulgação dos documentos secretos do Vaticano orquestrada pelo mordomo do papa, Paolo Gabriele, e muitas outras mãos invisíveis, foi uma operação sabiamente montada (...) operação contra o poderoso secretário de Estado, Tarcisio Bertone, conspiração para empurrar Bento XVI à renúncia (...).

Apoio aos governos fascistas


(...) os partidários fascistóides e ultrarreacionários do Mosenhor Levebvre (...), [que pretendem] legitimar no seio da igreja a corrente retrógada que, de Pinochet a Videla, apoiou quase todas as ditaduras de ultradireita do mundo, saúdam a renúncia do Papa.

O Vaticano é um tenebroso gestor de dinheiro e muitas das querelas que surgiram no último ano têm a ver com as finanças, as contas maquiadas e o dinheiro dissimulado. Esta é a herança financeira deixada por João Paulo II, que, para muitos especialistas, explica a crise atual.

A Mafia e o Banco do Vaticano

As contas da Santa Sé são um labirinto de corrupção e lavagem de dinheiro cujas origens mais conhecidas remontam ao final dos anos 80, quando a justiça italiana emitiu uma ordem de prisão contra o arcebispo norteamericano Paul Marcinkus, o chamado “banqueiro de Deus”, presidente do IOR e máximo responsável pelos investimentos do Vaticano na época.

João Paulo II usou o argumento da soberania territorial do Vaticano para evitar a prisão e salvá-lo da cadeia. Não é de se estranhar, pois devia muito a ele. Nos anos 70, Marcinkus havia passado dinheiro “não contabilizado” do IOR para as contas do sindicato polonês Solidariedade, algo que Karol Wojtyla não esqueceu jamais.

A rede e os tentáculos do polvo

No dia 18 de junho de 1982 apareceu um cadáver enforcado na ponte de Blackfriars, em Londres. O corpo era de Roberto Calvi, presidente do Banco Ambrosiano. Seu aparente suicídio expôs uma imensa trama de corrupção que incluía, além do Banco Ambrosiano, a loja maçônica Propaganda 2 (mais conhecida como P-2), dirigida por Licio Gelli e o próprio IOR de Marcinkus.

Tedeschi saiu do banco poucas horas depois da detenção do mordomo do Papa, justamente no momento em que o Vaticano estava sendo investigado por suposta violação das normas contra a lavagem de dinheiro.


O que é hoje a Igreja Católica


(...) Tedeschi começou a elaborar um relatório secreto onde registrou o que foi descobrindo: contas secretas onde se escondia dinheiro sujo de “políticos, intermediários, construtores e altos funcionários do Estado”. Até Matteo Messina Dernaro, o novo chefe da Cosa Nostra, tinha seu dinheiro depositado no IOR por meio de laranjas. 

A hierarquia católica deixou uma imagem terrível de seu processo de decomposição moral. Nada muito diferente do mundo no qual vivemos: corrupção, capitalismo suicida, proteção de privilegiados, circuitos de poder que se autoalimentam, o Vaticano não é mais do que um reflexo pontual e decadente da própria decadência do sistema [capitalista que defende]. 

(ver ainda) http://www.lepoint.fr/dossiers/monde/pape-demission/

19 janeiro 2011

Ainda Miguel Sousa Tavares

O Conteúdo das campanhas presidenciais
Para além do breve comentário feito a propósito do post do Cantigueiro, quero ainda referir o que para mim é a questão de fundo. O conteúdo das campanhas. Miguel Sousa Tavares considerou que todos os candidatos eram vazios de propostas e que todos tinham feito uma campanha de fraco conteúdo. Não conseguiu ver diferenças. Mediu todos pela mesma bitola. 
Desde a apresentação da candidatura que Francisco Lopes assumiu publicamente um compromisso com os democratas e patriotas, com os trabalhadores.
Desde então, Francisco Lopes tem manifestado, nos debates, nos textos escritos e nos discursos que “o regime democrático consagrado na Constituição tem tido nos detentores do poder e nas políticas que praticam o seu principal agressor, num permanente conflito entre o carácter progressista e avançado do regime democrático, e a acção e os objectivos prosseguidos por sucessivos governos com vista ao seu desfiguramento e amputação”.



Tem afirmado que “a situação a que o País chegou é indissociável do desrespeito sistemático, por omissão ou violação grosseira, do texto constitucional e das mutilações que as várias revisões lhe têm imposto”. Insistiu sempre que a “solução dos problemas nacionais implica um compromisso empenhado com o projecto de Abril, inscrito na Constituição da República Portuguesa”.
Assinalou sempre que a sua candidatura “exprime a exigência de uma profunda ruptura e de uma efectiva mudança em relação às orientações políticas seguidas nas últimas décadas”.
Apresentou repetidamente “uma alternativa para o exercício das funções do Presidente da República” com o respeito, cumprimento e efectivação da Constituição da República, e dando combate às práticas que a desrespeitam e aos projectos que visam a sua subversão”.



O novo rumo que defende Francisco Lopes, assenta “na afirmação do reforço do aparelho produtivo e da produção nacional, como componente essencial para o desenvolvimento económico, para a criação de postos de trabalho com objectivo do pleno emprego e para a resolução dos principais estrangulamentos do País”.
Esclareceu, muitas vezes, em todos os locais, embora esquecido pela comunicação social, as formas como encara essa nova política, que passa pelo “aumento dos salários e das pensões, elevação do poder de compra, maior justiça social, reduzir as desigualdades, combate à pobreza, estímulo ao desenvolvimento económico e sustentação da actividade de milhares de pequenas e médias empresas”.



Tem acrescentado que o novo rumo que defende, se firma “na garantia de um sector público forte e determinante, no apoio às PME, na defesa dos serviços públicos, das funções sociais do Estado, na saúde, na educação, na segurança social”.
“Um rumo que valorize as imensas potencialidades da nossa agricultura, das pescas e de todos os recursos do mar, que defenda, na sua especificidade, a pequena e média agricultura, as explorações familiares e que, garantindo rendimentos dignos aos agricultores, promova a protecção e desenvolvimento da floresta, defenda o mundo rural e combata o abandono e a desertificação do interior”.
Avançou ainda com a necessidade de cumprir a Constituição no que se refere à “promoção da cultura e da língua portuguesas e de desenvolvimento de uma política nacional de ciência e tecnologia, que estimule e diversifique a produção e a criação artística, promova a fruição cultural, preserve e difunda o património cultural e a cultura popular, que aposte na ciência e investigação, no acesso sem restrições ao conhecimento, como forma de emancipação humana”.



Enfim demonstrou que Portugal só tem a ganhar com essa nova política e ainda com uma adequada política de ambiente e de ordenamento do território e que preserve os recursos naturais. Um rumo em que o Estado assuma um papel de motor do desenvolvimento, com o fortalecimento e autonomia do Poder Local, a afirmação da autonomia político-administrativas das regiões autónomas, a concretização da regionalização. Tem exposto a sua visão do papel do Presidente da República, no quadro dos seus poderes, pode e deve intervir de forma inequívoca na concretização do compromisso que assume de «defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição da República Portuguesa».
Pois, parece, que nada disto Sousa Tavares entendeu.

Máquina de moedas...

Do blogue "Cantigueiro"
é com muito gosto que transcrevo a seguinte boa observação: "Miguel Sousa Tavares é assim como que uma espécie de máquina dispensadora de clichês reacionários. Os patrões enfiam-lhe as moedas e lá vão saindo as frases estúpidas que todos lhe conhecemos".