Com o horizonte na Cimeira da Organização de Cooperação de Xangai (OCX), na cidade portuária de Tianjin, no nordeste da China, de 31 de agosto a 1 de setembro, a Índia e a China deram um passo importante nos seus esforços para normalização das suas relações bilaterais.
Isto poderá ser confirmado quando o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, se reunir com o presidente chinês, Xi Jinping, nos dias da Cimeira.
Esta aproximação será um acontecimento de grande importância no panorama da política mundial e certamente também terá reflexo no fortalecimento dos BRICS. Pode ser um bom exemplo na ordem mundial emergente do século XXI. São os dois países mais populosos do mundo.
As boas relações entre a China e a Índia e um entendimento estratégico será benéfico para os BRICS e para ambos os países. As recentes pressões dos EUA para que a Índia deixe de adquirir em especial o petróleo da Rússia, e as imposições de Trump com taxas ou tarifas à Índia, podem ter influído nas decisões de Modi de escapar à tradicional influência dos EUA e deixar de ser uma ferramenta de pressão sobre a China. Esta perspetiva certamente preocupa Trump, que tem ameaçado repetidamente os BRICS por serem um sério concorrente e contribuirem para o enfraquicimento do dólar como moeda global. O sistema de compensação CIPS da China, o SPFS da Rússia e o UPI da Índia são alternativas embrionárias ao SWIFT.
O Ministro dos Negócios Estrangeiros da China, Wang Yi, que é também membro do Bureau Político do Comité Central do Partido Comunista da China (PCC) e diretor do Gabinete da Comissão Central dos Negócios Estrangeiros, visitou Nova Deli durante dois dias. Marcou um ponto de viragem nas relações dos dois países, uma vez que Wang, indiscutivelmente um diplomata muito experiente e considerado, teve uma intervenção muito positiva nas negociações fronteiriças.
Wang referiu que a China e a Índia têm o dever de "demonstrar um sentido de responsabilidade global, atuar como grandes potências que são, dar o exemplo aos países do mundo e contribuir para a promoção da multipolarização global e da democratização das relações internacionais. Segundo a Agência de Notícias Xinhua há um "consenso" entre Wang e o Ministro dos Negócios Estrangeiros indiano, S. Jaishankar.
O Ministro dos Negócios Estrangeiros da Índia defendeu "aprofundar a confiança política mútua com a China, reforçar a cooperação mutuamente benéfica nas áreas económica e comercial, melhorar o intercâmbio interpessoal e manter conjuntamente a paz e a tranquilidade nas zonas fronteiriças" e, numa publicação nas redes sociais, declarou: "Estou confiante de que as nossas conversações de 18 de agosto contribuirão para a construção de uma relação estável, cooperativa e orientada para o futuro entre a Índia e a China".
A visita de Wang contribuiu para que ambos os países retomem os voos diretos, desenvolvam o comércio e investimentos, cooperem nas potencialidades dos rios transfronteiriços, nomeadamente para o comércio fronteiriço através das passagens dos Himalaias, facilitem a emissão de vistos, em ambos os sentidos.
Modi pode ter grande influência positiva no acordo fronteiriço com a China pois está a dar prioridade à normalização das relações com a China e está consciente de que isso é benéfico para a Índia. É provável que pressões internas de sectores progressistas, e a necessidade de Modi ter que prestar contas face às imposições de Trump tenham também contribuído para este entendimento que está a nascer. A Índia, tal como os BRICS, procura diversificar os seus laços económicos e comerciais com outros países. A China, com fronteiras comuns tem todas as condições para proporcionar um bom desenvolvimento das suas condições económicas. Como deu a entender Modi, vale a pena escapar à influência dos EUA e, pelas mesmas razões, robustecer o processo Rússia-Índia-China, que Moscovo tem vindo a impulsionar.