2 de dezembro de 2014

O que António Costa disse e não disse

No Congresso do PS, Costa afirma a ruptura com a política de direita e desafia a esquerda para se juntar às soluções. Mas que soluções? Não disse.

Costa não se definiu.
Não propõe uma política alternativa como fez o PCP. É certo que o PCP começou à muito tempo a debater e a construir uma solução para a Política Alternativa. Costa tem pouco tempo como líder do PS. Contudo apresentou-se como alternativa a Seguro, apresentou-se agora em Congresso e, seria lógico que, para além da pessoa, se conhecesse o seu projecto. Quanto ao Congresso é assunto que não me diz respeito. No entanto as suas palavras extravasaram o Congresso pois dirigiu desafios à esquerda.
Mas que desafios?

Que diz Costa da política fiscal ou da reposição dos salários?
Na Assembleia o PS votou contra soluções apresentadas pelo PCP. E Costa, que pensa disso? 

A direita, com que Costa quer romper, e muito bem, avança com as privatizações de sectores estratégicos para a nossa economia. Costa romperá com essa marca da política de direita? Não disse.

A direita prossegue o desinvestimento público, o atrofiamento do mercado interno, a destruição do papel fomentador de riqueza do Estado. Costa certamente discordará. Mas que propostas apresenta? Os comunistas apresentaram alternativas consistentes elaboradas em imensos debates. Será que Costa, concordará ou fará algo semelhante?

A direita, no passado com a colaboração do PS, destruiu sectores da nossa produção, como as pescas, a agricultura, as grandes indústrias e vendeu o que restou ao capital estrangeiro. Costa não seguirá, certamente, esta política de desastre e anti-patriótica. Mas que apresenta? Fará como o PCP que apresentou propostas para "Pôr Portugal a Produzir", sistematicamente derrotadas na Assembleia da República?

É sabido que, sem aumentar os postos de trabalho, sem criar riqueza, sem a imposição de medidas e políticas que fomentem a produção nacional, sem que o poder de compra seja melhorado, sem que o país produza aquilo que poderia em vez de importar, a economia não cresce e o desemprego aumenta. Costa apresentará medidas no mesmo sentido das que os comunistas têm proposto? Apresentará outras ou mantêm o silêncio sobre como fará para contrariar a política de direita?

Está na ordem do dia a promiscuidade entre poder político e poder económico e a teia de interesses e dependências, a corrupção, as saídas de dinheiro para paraísos fiscais, a lavagem de dinheiros, que corroem a democracia o prestígio das instituições. Os comunistas apresentaram propostas para impedir e penalizar a corrupção. O PS, juntamente com a direita, rejeitou-as. Sendo matéria tão importante e chocante não mereceria uma posição de Costa?

Que sabemos afinal de Costa para além das bonitas palavras, e boas intenções que tem manifestado? Não é que seja desconfiado, nem que esteja a admitir que essas palavras e discursos não sejam sinceros ou bem intencionados. Mas... não seria lógico que Costa desse a conhecer o "Como" vai romper com a política de direita? Sendo certo aquilo que disse, e o PCP já havia dito várias vezes, não se pode pedir o apoio da esquerda, sem dizer para quê, e muito menos para fazer política de direita. 

Nesta matéria teria particular significado um plano para combater a dívida, pública e externa, tal como fez o PCP com o Projecto de Resolução apresentado na Assembleia da República visando uma solução integrada para resgatar o País da dependência e do declínio.
Tal como é importante dizer algo sobre as propostas que os comunistas apresentaram para a política fiscal, o aumento e reposição dos salários, a defesa da saúde e da educação públicas e a proposta de convocação de uma conferência intergovernamental para a revogação e suspensão do Tratado Orçamental e análise do “Tratado Transatlântico de Comércio e Investimentos” que está a ser negociado entre a União Europeia e os EUA sem conhecimento e sem consulta pública.

Costa fala, vagamente, da "Agenda para a Década", de uma “Agenda Europeia” de “defender os interesses de Portugal na Europa”.
Mas o que é isso e o que significa no novo estilo de política do PS de ruptura com a direita? Não sabemos.

A estas questões muitas outras podiam ser acrescentadas.
Tendo Costa desafiado a esquerda para se juntar às soluções. E não tendo avançado com qualquer proposta, ou está a criar suspense ou, então o que disse foi gratuito. Quando saberemos?
Costa não pode desafiar a esquerda para ser parte da solução e ele próprio não apresentar soluções nem dizer "o que" e "como" propõe fazer a para a sua parte.

Actualização às 23.00 horas
Em complemento das referências à Política Alternativa que o PCP propôs pode ser consuldada aquihttp://www.pcp.pt/politica-patriotica-esquerda