18 de outubro de 2012

"A visita da velha senhora"*

(ver comentário no final, publicado às 24.00h.)
Merkel visita Portugal
Comprar o resto do país ou pagar a dívida da Alemanha aos portugueses?

A visita da "velha" senhora, velha na política que representa, recordou-me os meus tempos de criança e a ajuda de Portugal à Alemanha durante a II Grande Guerra.
Creio ser útil recordar a nossa história, como o fiz no texto anterior, mas, agora, a propósito da Alemanha que não desistiu de subjugar o mundo. Primeiro com guerras militares e hoje com a guerra económica. 

A nossa memória

Servindo-me da memória, das buscas na história de Portugal e na história do Partido Comunista Português que fornece dados preciosos sobre a vida dos trabalhadores e da sociedade portuguesa, recordo: 


Salazar, apesar de se dizer neutral em relação à Guerra, estava ideologicamente com Hitler, quer no projecto de regime, quer na luta contra o comunismo. Discretamente, apoiou a Alemanha, com fornecimentos de minérios como o ferro e o volfrâmio, alimentos, roupas e calçado para o exército alemão.

Dois exemplos entre muitos:

Avante clandestino, de Abril de 1942, denunciava que Salazar e Franco estavam a enviar para a Alemanha, muitas toneladas de armas, munições, granadas, motos, que eram enviadas de Marvão, Vilar Formoso e Fontes de Onor para a Suiça. 
Informava ainda que para além das armas eram fornecidos alimentos, 
De Marvão seguiram muitos comboios carregados de feijão branco, caixas de sardinhas, peixe de salmoura, pevides e alfarroba.
De Lisboa (via Vilar Formoso) saíram 276 pipas com 278.000 litros de vinho licoroso.

Maio de 1942

Em Maio de 1942, novamente o Avante denunciava, as informações colhidas pelos seus militantes nos seus locais de trabalho.
Dizia o Avante: Por via marítima, no vapor espanhol “Cristina” seguiam para o porto italiano de Génova, donde seguirão para a Alemanha via Suiça, 2.600.000 quilos de trigo, 500.000 quilos de cacau.
No barco espanhol “Iraque”, seguiram com o mesmo destino, mais 1.999.500 quilos de cevada, 951.665 quilos de milho e 130.878 quilos de cacau.
No barco português “Alger” saíram com o mesmo destino 883 fardos de lã, 141.691 quilos de sebo, 30.000 quilos de óleo e 34.050 quilos de cacau.
No vapor espanhol “Carmen” seguiram para Tanger e Melila, destinadas às tropas alemãs no Norte de África, 128.872 quilos de feijão e 139 fardos com peças de roupa.

Por terra, seguiram 16.000 quilos de toucinho salgado. Segue-se a denúncia dos produtores que fazem negócio com o estado.

Por via aérea, um quadrimotor italiano, carrega diariamente, no Aeródromo da Granja do Marquês,  5.000 pães fornecidos pela Manutenção Militar, 
Etc. etc.

Relatório do Instituto Nacional de Estatística


Em Dezembro de 1942 o INE, elabora um relatório que revela que “a alimentação dos portugueses se baseia na broa com umas três ou quatro sardinhas salgadas, mais ou menos batatas, duas tigelas de caldo com legumes secos. Na população rural o problema agrava-se, achando-se a maioria das pessoas em estado de subalimentação, com regime insuficiente, tanto em qualidade como em quantidade”.
Este era o panorama do Natal desse ano e que se manteve muito tempo.

As senhas de racionamento e a fome

O Partido Comunista Português insistentemente denuncia que Salazar alarga o racionamento de bens essenciais, na proporção das ajudas a Hitler. Primeiro foi a gasolina e a electricidade, depois um conjunto grande de bens essenciais. . A sujeição dos produtos ao racionamento é progressiva: o arroz, açúcar, bacalhau, massa, sabão, azeite, óleo, manteiga, café, cacau, cereais, farinhas. Até o pão não escapa e passa a ser reduzido, o branco, a 120 gramas por dia e por pessoa ou, em alternativa, o pão escuro a 180 gramas. A batata é meio quilo por semana e por pessoa. O racionamento durou vários anos após a guerra. Eu que nasci em 1943 com 4 ou 5 anos de idade recordo o cuidado que em minha casa havia com a gestão das senhas de racionamento. 

A fome para os pobres e o negócio dos ricos

A fruta e o peixe não chegam ao povo. O leite é falsificado com água e o açúcar com farinha e a farinha com pó de pedra, o azeite com óleo, a manteiga com banha, o café com chicória e cevada torrada. 
Quem tem um palmo de terra, planta legumes, e cria galinhas, coelhos ou patos. Por vezes em casa, em gaiolas improvisadas, criam-se animais para comer. Os cães vadios rareiam nas ruas, comidos como cabrito. 

Nota sobre o título: Recebi alguns comentários no Facebook e por email, estranhando o título deste texto. De facto fez-me lembrar a peça de teatro com o mesmo nome. Se forem à página do Teatro SãoLuiz http://www.teatrosaoluiz.pt/catalogo/detalhes_produto.php?id=329 poderão veralgumas semelhanças que achei curiosas. Em resumo, é uma peça fulgurante sobre uma cidade arruinada que espera a visita da mulher mais rica do mundo para encontrar o seu resgate económico. Exactamente cinquenta e seis anos depois, seria difícil encontrar um texto que nos devolvesse com maior precisão a confusão ética e política em que o estado de necessidade financeira lança uma comunidade que sempre se regeu por valores convencionais. Claire Zachanassian (Angela Merkel) é o arquétipo do poder, da sua discricionariedade e do seu lado pulsional.