20 de fevereiro de 2012

Perigo da III Guerra Mundial


A tensão no Médio Oriente e o conflito dos EUA com o Irão

Em conversa sobre os perigos duma III Guerra Mundial, provocada pelo conflito dos EUA com o Irão, António Bica enviou-me um texto que fez em 2010 e que se mantem actual. 

Resumo:
  
Nesse texto António Bica, recorda que em 1953 a CIA provocou o derrube do regime constitucional do Irão e impôs o Xá Reza Pahlevi, que lhe assegurou o controlo do petróleo. Há 30 anos o Irão libertou-se da ditadura de Reza Pahlevi e é hoje muito mais progressista. 
"Ao contrário do que a máquina de informação global dos EUA, (...) quer fazer acreditar à opinião mundial, o Irão não é uma ditadura militar. É um regime republicano constitucional embora confessional islâmico xiita, em que o poder a todos os níveis é conferido por eleições periódicas" e "as mulheres não são discriminadas no Irão".  "O Irão está a avançar política e socialmente em consequência do desenvolvimento do ensino generalizado em todos os graus a toda a população e do consequente desenvolvimento económico". 

Diz o roto ao nu... 
António Bica mostra que este processo tem avanços e recuos e as tensões criadas em especial pelas "intransigentes posições de Israel, que dispõe de numerosas bombas atómicas e defende a destruição por bombardeamento das instalações nucleares que o Irão sempre afirmou destinarem-se a fins pacíficos" tem dificultado o processo de desenvolvimento progressista do Irão. 
  

Jogos escondidos
"Como os EUA e a UE querem privar o Irão do material radioactivo de que dispõe" exigiram que o Irão "provasse sem lugar a dúvidas não ter intenção de o utilizar para fins militares, prova que, sendo de facto subjectivo e negativo, é impossível de fazer". As imposições e depois as represálias dos EUA e da UE têm vindo a criar uma enorme tensão "para enfraquecer o Irão, porque o Irão no mundo islâmico, apesar de religião xiita e de os palestinianos serem sunitas, é o mais destacado e firme defensor do direito de os palestinianos viverem na sua terra, a Palestina, livres de Israel".

Os pretextos das armas de destruição maciça
A "atitude dos EUA e da UE em relação ao Irão" é comparada com a "que foi adoptada pelo presidente Bush em relação ao Iraque no início da década de 2000 – provem que não têm meios militares de destruição maciça para não haver guerra. Sendo a prova negativa, os EUA e a Inglaterra sempre a consideraram insuficiente", para lhes dar o pretexto de "ocupar militarmente o Iraque e apropriar-se do seu petróleo", diz António Bica que termina com a esperança de que "A amarga lição da insensata guerra contra o Iraque" possa ter sido aprendida e nem os EUA nem Israel ataquem o Irão.


Neste resumo omiti muitos e importantes dados que António Bica apresenta. Por isso, para quem queira aprofundar a informação, aqui vai o texto completo:



A atitude dos EUA e da UE em relação ao Irão tem paralelo com a que foi adoptada em relação ao Iraque
  
António Bica


As últimas eleições presidenciais no Irão mostraram que o país está política e socialmente activo. A população, especialmente a que cresceu sob a República Islâmica do Irão que sucedeu em 1979 à ditadura do Xá Reza Pahlevi controlada pelos EUA, é hoje muito mais instruída. Com a república islâmica o Irão tem nova constituição na linha da do regime constitucional que em 1953 a CIA derrubou impondo o Xá como rei absoluto e por via dele assegurando o controlo do petróleo iraniano.
Ao contrário do que a máquina de informação global dos EUA em que muitos judeus têm poderosa influência quer fazer acreditar à opinião mundial, o Irão não é uma ditadura militar. É regime republicano constitucional embora confessional islâmico xiita, em que o poder a todos os níveis é conferido por eleições periódicas, incluindo dos membros do Conselho Religioso que elegem entre si o supremo líder religioso.
O Conselho Religioso tem no Irão função política constitucional semelhante à que teve em Portugal o Conselho da Revolução a seguir ao 25 de Abril, garantindo que os princípios e os valores políticos defendidos pela revolução não sejam subvertidos. E as mulheres não são discriminadas no Irão, sendo maioritária nas escolas, incluindo nas universidades, e em várias profissões. A situação política e social no Irão é muito mais avançada do que a existente na generalidade dos países islâmicos sunitas que os EUA protegem, como a Arábia Saudita, o Egipto e o Paquistão. O Irão está a avançar política e socialmente em consequência do desenvolvimento do ensino generalizado em todos os graus a toda a população e do consequente desenvolvimento económico. Esse desenvolvimento gera tensões sociais e políticas com os consequentes avanços e recuos.
Agora parece estar o Irão mais progressista em fase de recuo. As forças mais conservadoras do ponto de vista religioso e político estão a procurar refrear a evolução.
Os EUA e a União Europeia não parecem estar a entender o processo político do Irão, seguindo as intransigentes posições de Israel, que dispõe de numerosas bombas atómicas e defende a destruição por bombardeamento das instalações nucleares que o Irão sempre afirmou destinarem-se a fins pacíficos em conformidade com o Tratado Internacional de Não-Proliferação Nuclear que subscreveu.
Os últimos desenvolvimentos do caso respeitam ao uso de material nuclear para fins médicos, sobretudo para tratamento de tumores cancerosos, de que o Irão não dispõe. Porque é necessário que para isso o material nuclear seja enriquecido a 20%, muito longe dos 90% necessários para a produção de bombas atómicas, percentagem essa superior à necessária para produção de electricidade, o Irão propôs que lhe fosse fornecido, em pequenas quantidades, em troca de material nuclear enriquecido a 3,5% que tem estado a produzir em proporção das pequenas quantidades enriquecidas a 20% necessárias para fins médicos.
Como os EUA e a UE querem privar o Irão do material radioactivo de que dispõe propuseram em 21 de Outubro de 2009 que o Irão enviasse previamente 75% do material radioactivo enriquecido a 3,5%, para só depois receber material radioactivo enriquecido a 20% se provasse sem lugar a dúvidas não ter intenção de o utilizar para fins militares, prova que, sendo de facto subjectivo e negativo, é impossível de fazer. O Irão não aceitou as condições e em 7 de Fevereiro de 2010 iniciou procedimentos para obter material radioactivo enriquecido a 20% para ser usado em fins médicos. Seguiu-se a habitual negociação liderada pelos EUA e a UE para impor no Conselho de Segurança da ONU sanções contra o Irão. A Rússia, provavelmente a troco de concessões estadunidenses e europeias, poderá, embora não seja certo, viabilizar as sanções. A China parece estar mais relutante mas não é impossível que ceda em troca de concessões que se lhe afigurem vantajosas. Israel, que sempre se recusou com o beneplácito dos EUA a cumprir todas as resoluções do Conselho de Segurança da ONU, para restituir aos palestinianos a terra que ocupa, assiste ao desenrolar das pressões políticas para enfraquecer o Irão, porque o Irão no mundo islâmico, apesar de religião xiita e de os palestinianos serem sunitas, é o mais destacado e firme defensor do direito de os palestinianos viverem na sua terra, a Palestina, livres de Israel.
A atitude dos EUA e da UE em relação ao Irão na questão da energia nuclear tem paralelo na que foi adoptada pelo presidente Bush em relação ao Iraque no início da década de 2000 – provem que não têm meios militares de destruição maciça para não haver guerra. Sendo a prova negativa, os EUA e a Inglaterra sempre a consideraram insuficiente, que o que queriam era ocupar militarmente o Iraque e apropriar-se do seu petróleo. Veremos o desenrolar no Irão dos próximos acontecimentos, embora se possa ter como muito provável que nem os EUA atacarão militarmente o Irão nem autorizarão Israel a fazê-lo. A amarga lição da insensata guerra contra o Iraque parece ter sido aprendida.