29 de outubro de 2011

Os donos do mundo


Os Governos ao serviço
do capital financeiro



Li no jornal Económico de dia 21 um interessante artigo de Rui Barroso, com o título "Afinal, o Goldman Sachs manda no mundo?"

Esta pergunta é justificada quer por várias opiniões quer por dados que vou procurar resumir, ainda que face a tanta informação seja tarefa difícil.

Começa RB por citar o Presidente da GS: "Sou um banqueiro a fazer o trabalho de Deus". Explica contudo que o "trabalho de Deus" é a "encarnação do lado negro da força em Wall Street". Cita também o autor de "Money & Power: How Goldman Sachs Came to Rule the World", William D. Cohan, "Eu concordo com a tese de que os bancos, e especialmente o Goldman Sachs, se tornaram demasiado poderosos na medida em que influenciam a nossa política, a nossa economia e a nossa cultura". 
O poder do GS nos centros de decisão política levou a que esse banco seja tratado por Government Sachs. 

De facto o GS conta com um exército de antigos funcionários em cargos políticos e económicos nos lugares mais sensíveis nos paises e instituições do mundo. E diz RB que "o inverso também acontece, o recrutamento de colaboradores que já desempenharam cargos de decisão". E continua:"Não há dúvida que Wall Street tem uma força cada vez mais poderosa no governo americano. Não são apenas os milhões que vão para os bolsos de políticos atrás de políticos para ajudá-los a ganhar as eleições, mas os banqueiros de Wall Street são frequentemente escolhidos para posições de poder na Casa Branca, no Tesouro, na SEC [regulador dos mercados financeiros] e noutros reguladores", observa William D. Cohan, que passou 16 anos a trabalhar na banca de investimento antes de se dedicar ao jornalismo de investigação.

Não é só nos EUA que ex-Goldmans dão o salto para altos cargos políticos e económicos. Um dos exemplos é o futuro presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, que desempenhou o cargo de director-geral do Goldman International entre 2002 e 2005, levando-o mesmo a ser questionado no Parlamento Europeu sobre as ligações do banco de investimento à Grécia.

Tanto na crise financeira americana de 2008 como na tragédia grega, "o Goldman Sachs foi alvo de acusações(...). O Goldman Sachs ajudou, a partir de 2002, a Grécia a encobrir os reais números do défice, através de ‘swaps' cambiais com taxas de câmbio fictícias, o que na prática permitiu a Atenas aumentar a sua dívida sem reportar esses valores a Bruxelas". Continuando a citar o autor do artigo "Segundo o "Der Spiegel", o banco cobrou uma elevada comissão para fazer esta engenharia financeira e, em 2005, vendeu os ‘swaps' a um banco grego, protegendo-se assim de um eventual incumprimento por parte de Atenas. 

No início de 2010, os analistas do Goldman recomendaram aos seus clientes a apostar em ‘credit-default swaps' sobre dívida de bancos gregos, portugueses e espanhóis". Angela Merkel, disse: "É um escândalo os mesmos bancos que nos trouxeram para a beira do abismo ajudaram a falsear as estatísticas", mas isso não impediu que Petros Christodoulou, um antigo empregado do Goldman, assumisse em Fevereiro de 2010 o cargo de director da entidade que gere a dívida pública grega. 

RB refere que "O escândalo grego levou alguns deputados europeus a questionarem o futuro presidente do BCE sobre a sua independência para assumir o cargo". 

Nos EUA "O banco chegou mesmo a ser condenado por fraude". Além disso, recorreu a fundos públicos e foi acusado de ser beneficiado com o resgate da AIG, coordenado pelo Tesouro dos EUA, liderado na altura por um antigo presidente do Goldman. "Os banqueiros e 'traders' de Wall Street foram recompensados por tomarem riscos elevados com o dinheiro de outras pessoas. Como consequência, os bancos foram salvos e os banqueiros receberam os seus bónus de milhões de dólares. É difícil de acreditar que foram recompensados pelo seu falhanço, mas foi o que aconteceu", disse William D. Cohan.

Alessio Rastani, um 'trader' em 'part-time', defendeu em directo na BBC que não eram os governos que mandavam no mundo, mas sim o Goldman Sachs. 

Esta semana, numa entrevista ao "Huffington Post", Rastani teceu uma série de ideias sobre o papel do Goldman no mundo. E diz que as teorias da conspiração que aparecem sobre o banco não são uma coincidência. "Os governos dependem dos bancos, os bancos dependem dos governos. A relação é tão cinzenta e quem controla quem? Quem é o marionetista e quem é a marioneta? (...)", disse.

Em Abril de 2010, um jornalista da "Rolling Stone", Matt Taibbi, descreveu GS como um "grande vampiro" que se alimenta da humanidade, com um apetite sanguinário implacável por tudo o que envolva dinheiro.

Hank Paulson, antigo secretário de Estado do Tesouro dos EUA, saiu da liderança do Goldman Sachs para ser secretário de Estado do Tesouro durante a administração Bush. 
Paulson delineou o programa de ajuda à banca durante a crise financeira de 2008, que também resgatou o Goldman.

Mario Draghi, futuro presidente do BCE, foi director-geral da Goldman Sachs International. 

Mark Carney, governador do Banco Central do Canadá foi responsável pelas áreas relacionadas com risco soberano e foi o homem com a tarefa de delinear a estratégia do banco durante a crise russa de 1998.

Romano Prodi, antigo presidente da comissão europeia e ex-primeiro-ministro italiano esteve no Goldman nos anos 90. A ligação valeu-lhe críticas da Oposição quando rebentou um escândalo a envolver o Goldman e uma empresa italiana.

Robert Zoellick, presidente do Banco Mundial, foi director-geral do Goldman. Antes de se juntar ao banco tinha trabalhado no Departamento do Tesouro norte-americano. 

Robert Rubin, antigo Secretário de Estado do Tesouro dos EUA, teve cargos de topo na administração do Goldman. 

Ducan Niederauer, presidente da NYSE Euronext que detém as bolsas de Nova Iorque, Paris, Bruxelas, Amesterdão e Lisboa, foi responsável do Goldman pela área da execução de ordens dadas sobre títulos financeiros.

Mark Patterson, Chefe de Staff do Tesouro dos EUA, antes de se juntar ao governo estava registado como lóbista, intercedendo para defender os interesses do Goldman.

António Borges, director do Departamento Europeu do FMI, foi vice-presidente e director-geral do Goldman. Após sair do banco foi da associação que delineia a regulação dos 'hedge funds' e em Outubro de 2010, foi nomeado director do FMI para a Europa.

Carlos Moedas, Secretário de Estado adjunto do Primeiro Ministro, e actual responsável pelo acompanhamento do programa da 'troika' trabalhou para a divisão europeia de fusões e aquisições do Goldman Sachs. 

António Horta Osório, presidente do Lloyds Bank, teve o primeiro emprego no Goldman. 
  
William C. Dudley, presidente da Fed de Nova Iorque, é a segunda figura mais importante na condução da política monetária dos EUA. Foi durante mais de uma década economista-chefe do Goldman e director-geral.


Goldman negoceia com um programa que tem potencial para influenciar os mercados. 
A negociação de acções e obrigações com dinheiro do próprio banco terá, segundo a “Bloomberg”, representado mais de 30% dos lucros que o Goldman conseguiu gerar em 2010. 
A negociação por conta própria do Goldman Sachs é conhecida pela sua pontaria. No segundo trimestre de 2010, enquanto se incendiava o rastilho da crise de dívida soberana, as operações de ‘trading’ do Goldman não fecharam um único dia com perdas. 

Em 2009, um antigo funcionário do Goldman, Sergey Aleynikov, foi detido por tentar vender parte do código secreto que o banco utiliza para fazer os seus negócios por conta própria e para assumir funções de ‘market maker’. Segundo o Ministério Público, na acusação ao antigo colaborador, “o banco levantou a possibilidade de que existe o perigo de que alguém que saiba como utilizar o programa possa fazê-lo para manipular o mercado de formas injustas”. Além disso, argumentou o procurador, o Goldman “gastou milhões atrás de milhões de dólares a desenvolver o programa nos últimos anos e é algo que dá ao banco milhões de dólares em receitas”.

Os Reguladores consideram que as divisões de negociação por conta e risco do próprio banco são um dos factores que podem levar a crises como a do Lehman Brothers. 

O Goldman Sachs foi o maior financiador de Obama na corrida à Casa Branca e o lóbi de Wall Street está presente na nova regulação para os mercados financeiros. “Estão a ter um papel importante. Eu não diria que o poder político está subjugado ao poder financeiro mas eles funcionam como uma mão e uma luva, tornando seguro que Wall Street pode viver com as novas leis e regulações, (...)”, defende William D. Cohan, jornalista que tem investigado o modo de actuação do Goldman Sachs. 


E em Portugal...


Em Portugal, o Goldman Sachs é Operador Especializado em Valores do Tesouro, o que significa que é uma das entidades contratadas pelo Estado para colocar dívida nacional no mercado e para aconselhar sobre as estratégias de financiamento que Portugal deve tomar. 

A ligação ao Goldman e a outras grandes firmas de Wall Street levou alguns órgãos de comunicação anglo-saxónicos a sugerir que Portugal e estes bancos terão feito negócios similares aos embustes orçamentais na Grécia. 

Nas ofertas públicas de aquisição que a Sonaecom lançou à Portugal Telecom e que o BCP lançou ao BPI, ambas em 2006, o Goldman interveio a montar as estratégias de defesa às ofertas hostis. Recentemente, foi ainda noticiado que o Goldman Sachs mostrou interesse em analisar os dossiers das privatizações da EDP e da REN que o Governo está a preparar no âmbito do acordo com a troika. Outro negócio a envolver o Goldman foi a compra, por parte da EDP-Renováveis, de uma eólica norte-americana. A EDP comprou a Horizon Wind Energy por 1,6 mil milhões de euros ao Goldman Sachs.

(Artigo publicado no suplemento Outlook de 14 de Outubro)