23 de setembro de 2011

O discurso de Dilma na ONU

Um discurso a que a Comunicação dita social deu pouca atenção mas que merece ser analisado


Não tenho pretensões a fazer uma análise aprofundada do discurso de Dilma na ONU. Começo por notar que, mais uma vez, em Portugal a "censura", autocensura ou critérios "misteriosos" na comunicação dita social, levaram a que se desse pouca atenção ao discurso de Dilma na abertura da AG da ONU. 
Coisas foram ditas, outras subentendidas, outras ainda não ditas mas que mereciam umas palavras. 
Independentemente de análises mais aprofundadas, e sabendo que Dilma não tem, própriamente, uma visão de esquerda da política, tocou em assuntos de grande importância.
Dilma deu algumas bofetadas nos responsáveis pela política dos países mais ricos. Criticou os poderosos que impõem aos outros as regras para combater a crise que eles criaram. 


A causa da Palestina


Criticou directamente Israel, por não compreender que apenas uma Palestina “livre e soberana” poderá estender a “estabilidade política em seu entorno”. Acentuou também a responsabilidade da própria cúpula das Nações Unidas, e reivindicou um assento no seu Conselho de Segurança. 
Foi clara na defesa da reivindicação do povo palestiniano. E sendo menos clara defendeu o cumprimento por todos os Estados membros da ONU, e pelas organizações internacionais, das Resoluções da ONU que reconhecem os direitos nacionais do povo palestiniano, nomeadamente o direito ao estabelecimento do Estado da Palestina, soberano e independente, nas fronteiras anteriores a 1967.
Recorde-se que no ano passado, o Brasil e outros países da Unasul [União de Nações Sul Americanas] tinham tomado a decisão de defender o Estado palestino. 
Note-se que mais de 100 países já reconheceram o Estado da Palestina e bem vimos os aplausos de grande parte dos presentes. 


A Mulher, a igualdade e a participação


Fez o apelo à igualdade e participação da mulher e ao falar da crise, Dilma disse “Nós, mulheres, sabemos, mais que ninguém, que o desemprego não é apenas uma estatística. Golpeia as famílias, nossos filhos e nossos maridos. Tira a esperança e deixa a violência e a dor” e disse: “Junto minha voz às vozes das mulheres que ousaram lutar, que ousaram participar da vida política e da vida profissional, e conquistaram o espaço de poder que me permite estar aqui hoje”. Lembrou ainda o período em que foi torturada na prisão, durante o regime da ditadura militar.


A Crise Económica [do capitalismo] mundial


Na sua análise da crise económica internacional, afirmou que a crise também é de governança e de coordenação política. Poderia bem ter dito que era também de opções políticas. Deixou claro que o grupo dos sete países mais ricos do mundo não tem mais condições políticas para resolver a crise.



Acusou os países mais avançados de transferirem o custo das suas crises para economias emergentes. Criticou as desigualdades. Faltou a referência que essa transferência de custos penaliza sobretudo os trabalhadores e os mais pobres. 


Desemprego e responsabilidade dos Bancos


Contudo apontou o dedo aos Estados Unidos que provocaram uma crise geral e o desemprego de mais de 14 milhões de trabalhadores, no seu próprio país. Lembrou que os países da União Europeia, já somam 44 milhões de desempregados, e no mundo mais de 205 milhões. Dilma mostrou o seu cepticismo face às políticas e medidas adoptadas e apresentou saídas dizendo que "esta crise é séria demais para que seja administrada apenas por uns poucos países. Seus governos e bancos centrais continuam com a responsabilidade maior na condução do processo" e concluiu "todos os países sofrem as consequências da crise, todos têm o direito de participar das soluções".
  
Muitas mais coisas foram ditas que merecem reflexão, para o bem ou para o mal. Algumas notas:
- Substituir teorias do passado e de um mundo velho...por novas, para um mundo novo.
- Estimular as economias debilitadas
- Controlar o sistema financeiro, fonte de instabilidade. Impedir a manipulação do câmbio
- Reforço do mercado interno. Inovação tecnológica
- Combater as causas da crise e instabilidade global
- Recurso à força para resolver conflitos. Novos ciclos de violência e fomento do terrorismo
- Responsabilidade de proteger e as dolorosas consequências de intervenções
- Necessidade da reforma do Conselho de Segurança
- Defesa do ambiente e do clima. Respeito pelo protocolo de Kyoto