6 de outubro de 2015

Quem ganhou e quem pode vir a perder

As maiorias e a poeira que nos querem atirar para os olhos

Muitos, jornalistas, comentadores e pessoas que deveriam ser responsáveis, falam dos resultados eleitorais como se falassem de um jogo de futebol. Alguns não saberão ir além dessa sua vocação de comentadores de jogos. Outros, porém, sabem bem o que querem. Querem justificar que o partido que teve mais votos ganhou e por isso tem o direito de ser o escolhido para governar. Parece simples e lógico mas é falacioso e vamos ver porquê.
A democracia é mais do que um simples jogo. Então pergunta-se o que é isso de ganhar? PSD e CDS tendo mais votos que cada um dos outros partidos, não adquiriram a maioria que lhes permita sobreporem-se a todos os restantes. O povo é soberano e expressou uma vontade traduzida no conjunto dos resultados eleitorais. O ganhar ou perder é o que o povo vai sentir e não este ou aquele partido.

Afinal quem ganhou? ou... o que é ganhar?

A PAF sabe bem que não ganhou. Isso foi dito por Coelho e Portas a ponto de, com fingida humildade, se proporem dialogar com o PS para tentar a maioria que o povo não lhes deu e permita que formem um Governo que não corresponde aos resultados eleitorais.
PCP e BE propuseram ao PS acordo com pontos essenciais que entendiam ser imprescindíveis para um programa de esquerda que não traísse a vontade dos eleitores. PS ainda não respondeu.  Se António Costa, que fala em nome do PS, não faltar à sua palavra e abandonar, de facto, a política de direita, a maioria na Assembleia da República, corresponderá à maioria de esquerda expressa na votação.

A desculpa da ingovernabilidade

Por isso a ingovernabilidade é uma ameaça ou chantagem que nos querem fazer. Uma democracia parlamentar, permite recursos alternativos aos que só sabem governar em maioria absoluta, como partido único e totalitário. Para esses a discussão dos assuntos e a procura de soluções com outros partidos é factor de instabilidade. Como se na Assembleia da República existissem duas qualidades de deputados. Os que estão em maioria e que aprovam o que quiserem e os que estão na oposição e apenas Têm a possibilidade de protestar.



O povo manifestou as suas opções e escolheu deputados que representam os seus desejos e vontades. Por isso a Assembleia da República, composta por 230 deputados deve representar as vontades de todos os eleitores. Todas as combinações ou coligações formadas por partidos que respeitem os seus compromissos, são possíveis e legítimas.
Também por isso não podemos aceitar a classificação de coligações negativas, tal como não aceitamos o rótulo de partidos da contestação aos partidos na oposição. Essas tentativas de mascarar atitudes legítimas da democracia são um sinal da fraqueza de quem não gosta do pluralismo, da democracia e quer governar sem ter que dar contas e sem atender à pluralidade de vontades que os deputados representam. Isso é típico nas maiorias absolutas, e por isso o Presidente da República se esforçou por meter medo aos portugueses que, segundo ele, deveriam dar a maioria absoluta ao partido vencedor com o argumento da estabilidade.

Os factos e os fantasmas

Analisemos os factos sem as mascaras que lhes querem pôr.
PSD/CDS, coligação governamental, perdeu 730 mil votos, mais de um quarto do seu eleitorado de 2011.
Estavam habituados a uma tranquila maioria governamental de 132 deputados. Foi com essa maioria absoluta que fizeram a desgraçada política que arruinou o país e os portugueses.
Castigados, têm agora uma minoria de 107 deputados.
O Bloco de Esquerda e a CDU foram recompensados por propostas sérias apoiadas por um eleitorado que lhes deu um conjunto de quase 20% dos votos (10,27 para o BE e 8,22 para a CDU).
O PS que se comprometeu com abandonar a sua habitual política e não aceitar alianças com a direita, teve uma votação que cresceu de 28 para 32, 38%. Assim, o conjunto destes partidos, formam uma maioria de 53%, correspondente ao expresso pelos eleitores.

Agora vamos ver...

Ainda que possa haver deputados que venham a trair os seus eleitores, o que é certo e insofismável é que a população aumentou o seu apoio às políticas de esquerda e, reprovou a austeridade, reduzindo o apoio à direita que ficou sem a sua maioria absoluta.
O resultado é claro e não pode ser artificialmente corrompido.
A direita perdeu a legitimidade para continuar a sua política. Só o poderá fazer se deputados traírem os seus eleitores e os ajudarem a voltar a ter a maioria absoluta que os eleitores não lhes quiseram dar.