30 de agosto de 2015

Aprender com a situação na Grécia

Que e como fazer?

É consensual que o estudo da situação política na Grécia é importante para compreender o que se passa na fase actual do capitalismo, das perspectivas para as lutas dos povos, em especial da Europa, e para a sua libertação no caminho da construção do socialismo.
Quer no sítio web Diario.info quer no resistir.info foram publicadas interessantes análises da situação política na Grécia em artigos de vários autores.
Edmilson Costa, começa por confirmar que «As crises têm um significado profundamente pedagógico para as sociedades. Quanto maior a crise, mais se aproxima o momento da verdade para todos». Diz também que as crises «são momentos em que chegam à superfície de maneira explícita todas as contradições da sociedade. As pessoas começam a perceber claramente aquilo que antes estava ofuscado pela manipulação dos meios de comunicação e pela viseira ideológica repetida de maneira contumaz pelas classes dirigentes». Sublinha ainda que «nesses períodos os trabalhadores aprendem em dias de luta muito mais que em anos de calmaria, pois as manifestações, as greves, as batalhas nos locais de trabalho, nos bairros, nos locais de estudo e lazer ensinam muito mais que o aprendizado formal que obtiveram ao longo da vida».

Aprender com os erros

Dimitris Koutsoumbas entrevistado por Tassos Pappas chama a atenção que «retrocessos históricos, erros, fraquezas, devem ser ensinamentos para todos nós. O movimento, a classe trabalhadora, o povo, deve ser capaz de extrair conclusões valiosas para o presente e o futuro. Este é o único caminho pelo qual serão capazes de construir uma nova sociedade, sem os erros do passado».

Edmilson Costa Faz também uma extensa e interessante análise do que foi a «a tragédia do SYRIZA, a nova social-democracia fantasiada de "esquerda radical"» para concluir com seis parágrafos, a procura de soluções para uma «verdadeira saída para a crise» através da «luta que possibilitasse a mudança na correlação de forças entre o povo grego e o imperialismo europeu». Acrescenta como objectivos «o cancelamento unilateral da dívida grega…/… a nacionalização dos bancos e dos grandes oligopólios, o desligamento da União Europeia e do euro, além do fim das relações com a OTAN, e um programa de mudanças que incluísse o resgate dos salários dos trabalhadores e aposentados e a retomada da economia em novas bases, como um via de transição para a reorganização da sociedade grega, baseada no interesse dos trabalhadores e da população em geral».

Tal como está escrito poderá parecer serem objectivos imediatos, o que seria francamente irrealista. Mais adiante veremos porquê. É claro que, sabemos, como diz Edmilson, «não existe a menor possibilidade de acordo com o imperialismo e muito menos é possível reformar a Europa capitalista a partir de dentro, especialmente neste momento de crise sistémica global». Para se atingirem esses objectivos, mesmo que não fossem de imediato nem todos no mesmo “pacote”, que seria necessário fazer?

Os objectivos mobilizadores 

Creio que essa é a grande questão, pois uma coisa é a vanguarda apontar objectivos e outra é garantir que existe a base de apoio suficiente para os poder concretizar.  Antes de abordar essa questão vejamos alguns outros artigos, dos muitos publicados sobre o assunto.
Angeles Maestro pergunta: «Que outra saída tinha o povo grego após o referendo?» para responder que a «única possibilidade de evitar o que sucedeu era ter deposto o Syriza com a luta operária e popular. Obviamente, não estavam ainda reunidas as condições». Angeles Maestro considera que «É preciso fortalecer o poder da classe operária e construir uma alternativa ao Syriza a partir da esquerda, que inevitavelmente terá como pilar o Partido Comunista e como programa suspender o pagamento da Dívida, nacionalizar a banca e as grandes empresas monopolistas e sair do Euro e da EU». Como se vê, Angeles Maestro é mais comedido nos objectivos a concretizar, e avança com a necessidade de um trabalho «de organização a partir de cada bairro, de cada povoação», e, certamente também da elevação da consciência política, esquecendo-se, contudo, do papel dos trabalhadores nos locais de trabalho, nas empresas. No entanto conclui que «esse trabalho de explicação paciente, que desespera alguns impacientes, é o único fecundo».

Discutir, consciencializar, mobilizar e organizar

Também Edmilson, aponta para a necessidade de convocação do «povo grego em praça pública em todas as regiões do País para tomar ciência dos passos que o governo iria dar e das possíveis consequências do rompimento com o imperialismo europeu. Essas assembleias teriam um papel importante na preparação da resistência, a partir da organização nas fábricas, nos estaleiros, nos bancos, nos bairros, nos escritórios, nas escolas e universidade e no campo para resistir a qualquer tipo de acção do inimigo» adiantando que esse processo seria «um exemplo para os trabalhadores que estão na mesma situação na Espanha, em Portugal, na Irlanda, na Itália e outros países, mudando assim as perspectivas da luta dos trabalhadores em toda a Europa». Conclui que «a bola está novamente com o povo grego que, por sua tradição de luta, saberá encontrar os caminhos para dar a volta por cima e buscar sua emancipação».
Nestes artigos, talvez porque feitos por comunistas não gregos, falta uma análise consistente da sociedade na Grécia, da arrumação das forças em presença e a aferição do grau de consciência social e política dos trabalhadores e em especial da classe operária.

O estudo da arrumação das forças sociais

Qualquer destes autores, pouco falam da “arrumação de forças sociais” e das possibilidades de alianças que suportem objectivos e medidas.
Em Portugal o PCP dá muita importância a essa permanente análise e no seu Programa essa preocupação está sublinhada no sistema de alianças sociais, considerando como básicas a aliança da classe operária com o campesinato, pequenos e médios agricultores, com os intelectuais e outras camadas intermédias. Daí decorre também o sistema de alianças político-partidárias que «abrange de forma diferenciada outros movimentos, organizações e partidos que, nos seus objectivos e na sua prática, defendam os interesses e aspirações das classes e forças sociais participantes no sistema de alianças sociais». Sem essa análise, tão rigorosa quanto possível, tendo ainda em conta a situação internacional, as condições do imperialismo, e em especial na União Europeia, não é possível entender as opiniões expressas nos artigos referidos, quanto aos objectivos e acções apontados. Tão pouco se vislumbra a definição de alianças estratégicas, na luta revolucionária pelo socialismo, ou tácticas no presente período da vida na Grécia.

Também essa análise da composição social, permitirá com maior rigor, intervir na formação da consciência social e política, na intensificação e alargamento da luta de massas, como foi reconhecida a importância, e na construção de alianças sociais, base para a possibilidade das alianças políticas. Também sobre isto os artigos são omissos.

Que fazer?

Miguel Urbano numa admirável análise da “tragédia” na Grécia feita em 12 de julho e publicada em www.odiario.info/?p=3705 conclui que «Obviamente no atual contexto europeu a conquista do poder através de uma revolução é uma impossibilidade a curto prazo. Existem em alguns países da União Europeia condições objetivas para ruturas revolucionárias. Mas faltam condições subjectivas». Alerta, Miguel Urbano que, apesar dessa evidência, a curto prazo, não são «realistas os programas, por vezes muito ambiciosos, concebidos para uma transição no quadro de uma revolução democrática e nacional». Depois, referindo o caso português, dá como exemplo que «Em condições muito mais favoráveis do que as hoje vigentes, a revolução democrática e nacional portuguesa, inspirada nos valores de Abril, foi brutalmente interrompida por um golpe militar promovido pela burguesia com o apoio do imperialismo». Considera que, «hoje, desaparecida União Soviética, as grandes potências da União Europeia recorreriam à violência se necessário, contra qualquer país membro que ousasse por em causa a ordem capitalista, no âmbito de uma revolução democrática e nacional». E, logicamente pergunta: «Que fazer então? » para logo responder: «As revoluções não são pré-datadas. Ocorreram quase sempre em situações inesperadas, contra a própria lógica da História…». E adianta que embora o KKE, Partido Comunista Grego, esteja consciente que «não vai em tempo previsível tomar o poder no seu país, aliado a outras forças progressistas, luta com firmeza e coragem».
O KKE, no seu recente comunicado de 24 de agosto, aponta como necessidade «o reagrupamento do movimento dos trabalhadores e a construção da aliança social popular entre a classe trabalhadora, os agricultores pobres, os empregados urbanos por conta própria, a juventude e as mulheres das famílias dos estratos populares a fim de fortalecer a luta anti-monopolista e anti-capitalista para o seu derrube real, para a socialização dos monopólios, o desligamento da UE e da NATO e o cancelamento unilateral da dívida». Na Grécia o KKE, saberá certamente analisar, com objectividade, a sociedade grega e as condições internacionais que lhe permitam, definir objectivos realistas e traçar o melhor caminho a seguir nesta fase tão difícil para o povo grego. Nós, por cá, sabemos que a política de alianças é um processo que evolui e obriga a constantes ajustes, de objectivos, de programa, de formas de intervenção. Como dizia Álvaro Cunhal, «Aprendemos com a vida, com os factos, com as realidades, com as experiências. Corrigimos e enriquecemos as nossas análises”.