26 de março de 2012

A crise do capitalismo no mundo



Crise económica global: Três anos de percurso

Osvaldo Martinez desmonta a argumentação dos vendedores da ilusão da "retoma económica na Europa e Estados Unidos", «a fantasia social-democrata do capitalismo mau e do capitalismo bom e de que a luta de classes acabou” analisa o "estado de senilidade do capitalismo", a fome, o desemprego e a redução das forças produtivas e aponta pistas para uma análise global económica e social do mundo.
O texto original pode ser visto (aqui)


O Diário.info, publicou a analise do Professor Economista Osvaldo Martinez sobre a crise do capitalismo nestes três anos. Referiu que as "teorias sobre o chamado capitalismo senil que o economista argentino Jorge Bernstein vem sustentando" apresentam quatro tendências caracteristicas de senilidade do sistema, que resumo:
Uma é a desaceleração do crescimento económico mundial, estatisticamente comprovada.
Uma segunda é a hipertrofia financeira global, a tal extremo hegemónica que domina a totalidade do sistema. A financeirização manda hoje sobre a economia mundial.
A terceira é o facto dos rendimentos produtivos decrescentes da revolução tecnológica, se converterem em factor destruidor de forças produtivas. Coloca o exemplo do desemprego. 
Por último aparece a decadência do Estado burguês, que é visível nos Estados Unidos e nos Estados europeus.


Diz Osvaldo Martinez que "depois de trinta e oito meses de crise... não há recuperação à vista". Considera que as probabilidades de agravamento da crise são grandes uma vez que "os elementos de destruição predominam sobre os de criação".


Outra conclusão de Osvaldo Martinez, é que apesar da resposta estatal rápida e avultada em desembolsos, os resultados são nulos. Dá como exemplo os "pacotes de resgate". Estes resgates se por um lado, provavelmente evitaram uma queda ainda mais profunda, por outro, mantiveram uma estrutura especulativa parasitária, criaram uma nova bolha financeira que é a do resgate e aumentaram o sobre-endivamento público.


Osvaldo Martinez, refere ainda que há quem diga que, a solução para o capitalismo, está em abandonar o vício da hipertrofia financeira e voltar ao bom capitalismo, ou seja ao capitalismo produtivo, ao capitalismo empresarial, ao capitalismo da economia real. Esse é o argumento dos social-democratas.


Reflectindo sobre isto, Osvaldo Martinez, considera que "não se trata de um problema de preferências, isto é, não é voltar àquele, abandonando este como se fossem modelos que se podem adoptar consoante as conveniências do momento"... "o sistema não pode voltar ao capitalismo produtivo e à cultura produtiva", uma vez que as estatísticas "demonstram que 50% dos lucros das grandes empresas"... "provêm dos negócios financeiros. Não se trata de dois mundos, um mundo financeiro e o mundo da economia real; trata-se de um todo, um sistema produtivo financeiro integrado no interior das próprias mega empresas... esse sistema integrado está de tal forma arreigado e à volta de interesses económicos tão fortes que pensar que é possível separar um do outro é pura e simplesmente uma utopia... é o problema das mega empresas estarem tão integradas no produtivo e no financeiro que é impossível pensar que elas vão amputar uma das suas pernas, talvez tendo em conta um interesse, uma visão superior da sobrevivência do sistema; isso parece-me ser impossível, por isso me parecem utópicas estas afirmações de voltar ao capitalismo bom, ao capitalismo não de George Soros mas de Henry Ford".


Uma outra conclusão de Osvaldo Martinez, é a de que o neoliberalismo fracassou mas está vivo e, com força tal, "que foi capaz de envolver as tímidas medidas keynesianas, de tal maneira que conseguiu conservar a liberalização financeira e alimentá-la com a despesa pública, ou seja, pegando na keynesiana despesa pública e convertendo-a num instrumento ao serviço da liberalização financeira; tudo isto com um discurso crítico à desregulação financeira à mistura ... e impôs mais recentemente a política liberal pura e dura, isto é, a política do equilíbrio fiscal e do ajuste recessivo no caso europeu, como uma suposta fórmula anticrise".
"O peso e o poder dessa oligarquia financeira totalmente integrada no produtivo e no financeiro, provavelmente chegou a um grau tal que hoje o sistema não pode fazer o que fez na década de trinta". 


Osvaldo Martinez, abordou ainda o custo social da crise. "mais 300 milhões de pobres, mais cerca de 170 milhões de famintos, e mais 30 milhões de desempregados do que quando rebentou a crise" Constata, no entanto que "a reacção social tinha sido mais de direita que de esquerda", contudo "nos últimos meses o quadro mudou, apareceram Os Indignados, o movimento de ocupação de Wall Street e na Europa também animou o movimento de protesto social". 


Abordou ainda um facto novo: o da especulação nos mercados de alimentos e matérias-primas mas, especialmente dos alimentos. "O sistema usou a especulação com os preços dos alimentos como uma das fórmulas de manter a taxa de lucro, mas ao fazê-lo está a dar aso a um jogo muito mais perigoso que o da especulação de títulos". "Está a jogar com a fome das pessoas, e por isso parece-me que estamos na presença de uma caldeira social cuja temperatura pode subir a níveis muito perigosos para o sistema".


Referiu ainda que em 2011 "observam-se na economia mundial algumas coisas curiosas,  como o facto de esta crise que leva já 38 meses" não ter afetado "os lucros capitalistas" e "a bolha financeira não diminuiu, destruiu-se uma parte mas criou-se outra e até aumentou alimentada pelos pacotes de resgate que criaram a bolha do resgate". Nota Osvaldo Martinez que se observa "que continua a crescer a desigualdade social".


Para 2012, o Professor não vê indícios de recuperação. Considera que a crise não vai atingir a China mas vai obrigar a uma desaceleração no seu crescimento. Também na América Latina, que " vive uma bonança económica" e que em 2010 "cresceu muito perto dos 6% ", no ano de 2011 deve crescer à volta de 5%... teve entre 2010 e 2011 uma melhoria de 13% da relação dos termos de intercâmbio".


"Hoje, na América Latina, um dos grandes debates é sobre as alternativas ao neoliberalismo, alternativas que podemos perguntar-nos se estão dentro ou fora do capitalismo? As respostas são de uma gama variadíssima" conclui Osvaldo Martinez.


Por fim o Professor falou sobre a "integração latino-americana" que beneficia de "uma conjuntura especialmente favorável" dado o enfraquecimento dos Estados Unidos e da Europa. Considerou desejável o aproveitando desta conjuntura para a integração. "Uma direcção positiva é indubitavelmente a criação da CELAC, o primeiro organismo latino-americano que reúne todos os latino-americanos sem a presença dos Estados Unidos nem de nenhum outro país extra regional", disse.