6 de dezembro de 2011

Rebeldia premiada

Recordar a Argentina, mais um exemplo, como o da Islândia, de coragem e patriotismo

Em 2001, a Argentina viveu uma dura crise, tal como a nossa, provocada pela exploração do capitalismo neoliberal, que levou a uma dívida elevadíssima. Os vários governos, submetidos aos bancos e FMI, obtiveram empréstimos e "ajudas" a juros especulativos que afundaram o país.

De um artigo de Umberto Martins, (Brasil) recortei alguns parágrafos que me mereceram atenção:


"Tivemos a tragédia da Argentina em 2001, com direito a rebeliões, queda de governos e bancarrota no momento em que o país, altamente endividado e sob o tacão de governos neoliberais, aplicava as amargas receitas do FMI destinadas, como sempre, a assegurar os gordos lucros dos credores. Nosso vizinho e parceiro do Mercosul só saiu da lama quando deu um pontapé no traseiro do Fundo e decretou soberanamente, para irritação e desespero da banca internacional, a moratória da dívida externa.

 
A rebeldia argentina foi premiada pela história, já que depois da moratória (apesar das ameaças imperialistas e das pragas rogadas pelos banqueiros, que cortaram o crédito internacional para o país) a Argentina voltou a crescer impetuosamente reduzindo substancialmente os índices de desemprego e pobreza. Nestor Kirchner, que morreu em 2010, é por lá considerado com razão um herói nacional por ter tido a coragem política e intelectual de enfrentar o poderoso, muito embora decadente, sistema financeiro mundial.

Agora comento eu:
"É uma vergonha que em Portugal, Presidente da República, Governo e Deputados da direita, PS, PSD e CDS não tenham a dignidade e patriotismo que tiveram outros, para defender quem os elegeu (apesar de ter sido por engano, acreditando nas promessas eleitorais), e sejam uns cobardes submissos às ordens da Troika. Exijam a renegociação da dívida a que nos obrigaram os bancos privados! É certamente por vergonha que retiraram o feriado da Independência Nacional".


Para ver o resto do artigo:

Continuação de Umberto Martins...

O problema de fundo do FMI é sua completa subordinação aos interesses das potências capitalistas (EUA e Europa, que controlam mais de 50% das cotas e do poder dentro da instituição) e da banca. O dinheiro que empresta não se destina a estimular o desenvolvimento dos países. Flui, de forma direta ou indireta, para o bolso dos credores, garantindo o pagamento das dívidas e contornando a necessidade da moratória.

Ciência e interesses de classe

Não faltam aqueles que argumentam que o mundo está mudando e o FMI também se recicla. Já não seria, por exemplo, tão fundamentalista e sectário na receita neoliberal, admitindo hoje iniciativas de governos que impõem limites ao fluxo de capitais especulativos. Todavia, basta voltar os olhos para o que está ocorrendo na Europa para perceber que os pacotes impostos aos países em dificuldade têm a mesma orientação e objetivos dos planos aplicados na América Latina em passado recente: garantir a continuidade do fluxo de lucros para os banqueiros através de ajustes ficais que se traduzem em arrocho dos salários, demissões em massa e o impiedoso desmantelamento do Estado de Bem Estar Social.

É provável que o velho continente esteja a caminho de uma década perdida, concretizando o vaticínio da tecnocrata francesa. A responsabilidade do FMI e da “troika”, que compõe ao lado do BCE e da cúpula da UE, não será pequena na determinação deste drama. Já é visível na Grécia (há quatro anos em recessão), Portugal , Irlanda e outros países submetidos a pacotes de resgate que preservam os interesses da banca ao preço de um retrocesso social provavelmente sem paralelo na história.

A economia política não é uma ciência neutra, seus postulados teóricos, prognósticos e receitas são fortemente influenciados pelos interesses de classe. Por esta razão Karl Marx já falava em economia política burguesa em oposição à economia política da classe trabalhadora. O que orienta a ação do FMI, como observou Stiglitz, não é a ciência econômica. São os interesses decadentes e antissociais da oligarquia financeira, hostis ao desenvolvimento da economia. Isto está no DNA da instituição criada em Breton Woods, é mal que vem do berço e não parece sujeito a reformas.