21 de abril de 2011

O papel "educativo" da Televisão

As entrevistas manipuladoras de Fátima Campos Ferreira
O que se passou com Ramalho Eanes

Todas as entrevistas que tenho visto de Fátima Campos Ferreira (FCF), contêm, sempre, manipulação dos entrevistados mas, especialmente dos telespectadores. 

Por vezes, a manipulação é muito bem disfarçada, outras menos. Normalmente as técnicas usadas são o retirar conclusões que distorcem o que o entrevistado disse, outras é interromper o entrevistado quando a sua ideia não é o que ela quer que seja, outras ainda, introduzir na interrupção perguntas, que elas próprias são afirmações, ou que, face ao contexto das respostas do entrevistado, desviam a atenção para ideias que não são as que estão a ser expostas.

Isto acontece sempre nas entrevistas de FCF, que não perde oportunidades para induzir em erro o telespectador menos prevenido. 




Vejamos alguns exemplos:

Na entrevista com Ramalho Eanes (RE), depois de uma introdução em que o Ex-Presidente, manifestou a necessidade do diálogo e da unidade de todos para resolver os graves problemas que atravessamos, aos 4 min. FCF pergunta concretamente se "o senhor acha... que o Presidente da República poderia ter antecipado esta inacção até chegar o FMI?"
RE começa por responder que "nesta negociação é necessário haver uma estratégia" e essa estratégia devia passar "por uma concentração de forças... com os partidos todos reunidos... a consensualizar um estratégia e… apresentarem-se como uma frente unida perante os nossos interlocutores". Mais adiante esclarece "isso não está a acontecer e estamos a negociar de forma dispersa o que reduz a nossa capacidade de intervenção".
Então aos 5.25 min. FCF interrompe e dá-se ao luxo de completar a ideia do entrevistado dizendo "e os partidos de esquerda nem sequer foram ouvidos porque não aceitaram ir". 
Com esta interrupção Fátima desviou o assunto que era "das medidas que o PR poderia ter tomado para reunir todos os partidos" para uma outra que foi a posição dos partidos de esquerda não quererem negociar com o FMI



A ideia que FCF habilidosamente deu, foi que a recusa dos partidos de esquerda, era a recusa do diálogo. Eanes volta a afirmar que a democracia é o diálogo e então aos 6.15 min Fátima reforça a mesma ideia, de que os partidos de esquerda não quiseram dialogar, concluindo o que RE dizia, com a sua pergunta/conclusão "acha, então, que esses partidos deveriam ter ido a essa reunião?". Com esta pergunta/afirmação FCF novamente desviou o entrevistado que opinava – “reunião conjunta com todos os partidos, para definir uma estratégia” - para a “reunião do FMI com cada partido”. Mais uma "habilidade" a que Eanes respondeu dizendo que cada partido terá as suas razões e, reportando-se, certamente, à sua ideia da reunião para definir a estratégia disse "eu ficaria muito satisfeito que isso tivesse acontecido".
Fátima dá mais umas estocadas nos partidos de esquerda e RE relembrou acontecimentos em que participou como Presidente da Republica e, aos 6.30 min diz que "nunca o Dr. Álvaro Cunhal se recusou a discutir comigo, com a Presidência, todas as questões..." Então FCF aos 7.00 min tenta interromper mais uma vez, mas RE completou a sua opinião da necessidade de dialogo com os partidos. Aos 7.15 min FCF volta a distorcer a ideia de Eanes - necessidade de diálogo com os partidos - dizendo: "não é essa a realidade" actual, os partidos estão a ir a "conta gotas" às reuniões com o FMI. 
É evidente que esta forma de caracterizar “reuniões a conta gotas”, dita como foi, cria nos telespectadores uma imagem errada dos acontecimentos.



Aos 10.50 min. Eanes avança a ideia de um Governo de unidade com todos os partidos fomentado pelo PM para, na mesma linha de diálogo, enfrentar a situação e definir uma estratégia para negociar a redução dos juros, o alargamento do prazo de pagamento e pagar a dívida sem "esticar demasiado a corda" para os que estão em situação mais desfavorecida. Estas opiniões pareceram não interessar a FCF.
Então aos 23.00 min, já quase no fim, quando RE estava a falar da desarticulação da Europa, desde o fim da União Soviética, FCF preferiu perguntar quais as opiniões sobre as opiniões de Mário Soares, sobre Sarkosy, Merkel e Berlusconi. Como o povo diz "estava mais interessada em lavar roupa suja" e fabricar dissensões. É este o melhor jornalismo que temos na nossa televisão.