6 de abril de 2012

A "nova" Europa


Da “Europa Connosco” para a “Europa da Heterogeneidade”

O Presidente do BCE, Mario Draghi disse que os valores da solidariedade e da inclusão são eixos do modelo social europeu, mas, "esse modelo está morto". Não deu explicações.

Dos poucos argumentos produzidos, Mario Draghi  justificou com a crise a necessidade de cada um "se desenrascar". Justificou a ausência de coesão (aquilo que nos "venderam" para entrarmos na CEE) e a realidade de “uma época de heterogeneidade” (ou seja desigualdades). Assim abriu caminho para, à moda dos tecnocratas nacionais e da troika, preparar o "pessoal" para deixar de pensar em solidariedades e outros valores, "antiquados", e sujeitarmo-nos a uma revisão moderna “desse modelo”. 

Recordar, é preciso

Raciocinando na base dos valores desta sociedade: Fomos assediados pela publicidade de uma “Europa da Solidariedade”, da “Europa Connosco”. Ainda me recordo de Mário Soares, como delegado da propaganda para Portugal, a vender o seu produto aos portugueses. De comissões nada sei. Só sei que pelos seus bons serviços de vendedor, foi justamente promovido e remunerado.

Veio o Cavaco e aproveitando o "mercado", aviou os produtos que Soares tão bem vendeu. Não teve mãos a medir. Entregas ao balcãoe ao domicílio pelos seus marçanos que carregavam cestos de subsídios para destruir a agricultura, para abater as oliveiras e as vinhas, para matar as vacas produtoras de leite, para afundar os barcos de pesca, enfim para acabar com a produção nacional.


Portugal, com a esperteza de Soares e destreza de Cavaco, passaria a viver sem precisar de trabalhar. Com os subsídios da "Europa Connosco" compraríamos tudo o que precisássemos.

O PCP alertou para que não nos fiássemos na fartura das esmolas, mas, o povo tinha sido bem preparado com o "canto da sereia". Grandes empresários, famosos industriais, agricultores latifundiários, receberam as "encomendas de subsídios" e, lestos, trocaram máquinas por carros de luxo, barcos de pesca por iates, instalações industriais por grandes moradias com belas piscinas.
O desemprego cresceu, mas Soares e sua equipa de vendas dizia. É preciso que o desemprego aumente para captar investidores. E assim foi.

Mas os investidores não criaram mais emprego. Preferiram, comprar as empresas que teimosamente continuavam a produzir e, para acabarem com a concorrência aos produtos que vendiam, fecharam metade delas.

Com o dinheiro das empresas vendidas os nossos empresários passaram da engenharia mecânica para a engenharia financeira. Compraram e venderam ações, fugiram aos impostos e depositaram os lucros nos paraísos fiscais e bancos da Suíça.

A Europa Connosco, como quem vende “romances em folhetins”, oferecia os primeiros volumes à borla, com a assinatura da compra dos próximos. É o que se chama "fidelizar o cliente". Enquanto tem dinheiro para pagar, o cliente tem sempre razão (desde que concorde com a Europa Connosco, é claro).

Como não há sol que sempre dure, Portugal deixou de ter dinheiro. Os "subsídios" já não chegavam para pagar o que comprávamos. Lidos os primeiros folhetins, para saber como termina a história é preciso comprar os outros ao dobro do preço. Contratos são para cumprir! Pois então!
Não há problema, dizia a Europa Connosco. Nós temos cartões de crédito para distribuir. Compram agora e pagam depois. É preciso que continuem fiéis clientes, sempre a comprar. Nada de produzir. 

O PCP, o tal Partido que avisava que estávamos a ser “levados”, insistia no perigo de "destruir a produção nacional e a nossa soberania". Cassete, diziam eles. Outros diziam: "Antiquados"! pois então! "Então não estamos nós em tempos modernos de Globalização"?
Pela calada, os delegados da "Europa Connosco" em Portugal dão instruções: "Cuidado com os comunistas. Eles querem é mais trabalhadores para terem mais sindicalizados e poderem fazer reivindicações. Fujam dos comunistas que eles querem pôr-vos a trabalhar".

Chegou o dia em que as dívidas de Portugal eram mais do que se produzia e os desempregados quase tantos como os que tinham empregos a produzir. Então, a "Europa Connosco", deu um curso de Formação Professional aos seus vendedores e, no final, um certificado de bom aproveitamento chamado "memorando" ou "pacto de agressão" para começarem a exigir dos clientes. "Têm que pagar o que devem". 
Aumenta-se o trabalho dos que ainda têm emprego e reduz-se os vencimentos. "Se não têm dinheiro nós emprestamos aos bancos a 1%. Mas são os "mercados" definir as condições e os juros aos clientes", diz a "Europa Connosco", acrescentando "enfim, nós gostaríamos de ajudar mas... a crise... compreendem...".

Entretanto, como não há dinheiro para comprar coisas e os trabalhadores têm que trabalhar mais, não é preciso tantos a trabalhar e parte deles vão juntar-se aos desempregados. O povo paga e a troika elogia os vendedores, pois foram bons alunos. Fizeram os trabalhos de casa e tiveram boas notas (nos seus dois significados).

Ontem, Mario Draghi esclarece. Esqueçam a Europa Convosco, pois isso já deu o que tinha a dar. Agora temos a "Europa da heterogeneidade”. Ou seja cada qual desenrasca-se, como puder e, se puder...