24 de janeiro de 2012

É preciso...

Estive uns dias fora e quando regresso julguei ter regressado aos tempos de Salazar e Américo Tomaz nos anos 60

Algumas reflexões da Reunião do Conselho de Ministros

Todos de pé! Sua Excelência o Presidente do Conselho vai falar:

Informo-vos que, como estava planeado, Raquel Freire anunciou hoje que o fim das suas crónicas. 
O Programa "Este Tempo" terminou. Demos mais um passo nesta democracia que se aprofunda. 

O governo não pode permitir vozes discordantes. É preciso servir o poder sem criar a dúvida que gera a insegurança.

Não queremos fazer Censura. Mas, é nosso dever defender o povo ignorante das críticas que fomentam a instabilidade. É preciso que os nossos agentes de confiança se instalem discretamente. Que vigiem directores, chefes, jornalistas e comentadores. É para isso que são bem pagos. 

É preciso que tornem expresso que não há Censura. Nesta nossa democracia não há o antiquado traço azul nem a tesoura. Discretamente, os "chefes" e esforçados vigilantes da defesa da ordem constituída, têm que, paulatinamente, purgar e expurgar todos e tudo que não fale a nossa voz. As ordens, apesar de surdas, têm que ser claras. Cada um deve tomar consciência que não desejamos afastar ninguém. Mas, para não nos obrigarem a isso, cada um tem que se refrear e vigiar-se a si mesmo. 

Miguel Relvas, tem tido o bondoso papel de impedir que apareçam almas dilaceradas pela dúvida ou pela insegurança na nossa política. Ele sabe que é preciso impedir que se propague o negativismo e a crítica. É preciso, se necessário com firmeza, restituir o conforto das grandes certezas, da confiança no governo e da virtude dos mercados. 

A Pátria não se discute; não discutimos a autoridade dos seus chefes; não discutimos as famílias que fizeram a nossa gloriosa história; não discutimos o dever de trabalhar para o engrandecimento do lucro do capital. 

Não permito que se discuta o esforço patriótico do Presidente do Conselho. Quem não respeita as regras é desordeiro; mas quem as põe em causa, é subversivo ou comunista.


Felizmente Sua Excelência o Presidente da República, Professor Cavaco Silva, como os grandes homens, os predestinados, os grandes chefes, não perde tempo com princípios, com Constituições ou com preocupações de moral política. Não se pode governar com regras doentias e paralisantes duma democracia antiquada. 
Basta que se mostre esse sentimentalismo, doentio é certo, mas de que o povo tanto gosta, a que chamamos bondade ou caridade. 

Para defender a Pátria, são precisos safanões a tempo para evitar a violência. Nas revistas, nos jornais, nas emissoras radiofónicas, na televisão, nos teatros e nos cinemas, já não precisamos do lápis azul ou da tesoura da Censura. Já não precisamos de cortar os textos e as imagens fora de prumo, atentatórias dos nossos costumes e das lições dos nossos avós. O que é preciso, é não permitir que alguém se sirva dos nossos jornais, rádio ou televisão para fazer crónicas que ponham em causa a nossa autoridade e a nossa política. 

O safanão ou tabefe a tempo, afastando os libertinos que querem a liberdade, despedindo os desenquadrados, que não seguem os nossos conselhos, é necessário para evitar males maiores que põem em risco os respectivos pais, cônjuge, filhos, irmãos, e colegas de trabalho e todos os fracos de espírito que ouvem as suas ideias avançadas.

A subversão é peste. Há que meter a Nação em quarentena. Mas Raquel Freire e os outros comunistas, contagiaram já muitos bons homens e bons trabalhadores. 
É preciso abrigar as almas sãs, respeitadoras da ordem, dos chefes e patrões. 
É preciso mais futebol, para distrair e descomprimir as revoltas. 
É preciso estimular as revistas como as que havia no Parque Mayer, que permitam algumas críticas ingénuas e simples como o povo gosta. É preciso que o povo descarregue, a rir, toda a sua mágoa. 

É preciso investir em telenovelas que aliviem as tristezas e façam esquecer os dramas de cada um, mostrando os dramas de outros. É preciso mais programas educativos que apontem a bondade dos ricos e a sua humanidade ajudando os pobres. 

É preciso compensar e pagar bem a quem se esforça por mostrar que a nossa política é a única possível, é a que promove a submissão e humildade dos pobres, a paz e concórdia do povo simples e trabalhador, o respeito aos ricos, a coesão e a União Nacional. 


Sua Excelência o Presidente do Conselho encerra a reunião com o hino desta nossa casa democrática:



Nota: A imagem foi "emprestadada" do Blog Entre as Brumas da Memória